Minha amiga Dani me fez o convite para escrever no Blog da Imagística, e claro que aceitei na hora, eu que gosto de palavrear não recusaria tal convite. Só depois me dei conta de que aceitei quando já estava avançando em uma fase, talvez de transição, o que indica mudanças internas, e que cheguei no ponto em que não tenho nada pra dizer. E agora?
Parece letra daquela música sertaneja, só não sei se tenho o silêncio a falar por mim, porque meu silêncio, antes cheio de cenas e linguagens de sinais, é agora um silêncio silêncio. É algo frágil que pego entre as duas mãos logo que o dia amanhece, na hora em que o dia amanhece pra mim, que é diferente do horário de pessoas normais. É algo que só se percebe a existir quando depois de uma caneca de café com leite, e segue percebendo e se perdendo nas frestas do que o dia permite à vida vivida. Ao fim, já é algo que se incendeia e adormece no fundo de um rio, igual ao silêncio dos peixes, talvez.
O que vou eu dizer em um mundo onde tanto já se diz sobre tudo? Vou falar em por de sol? Quem quer saber de por de sol? Essa coisa tão banal e cotidiana, sem graça até para colocar em imagens nas redes sociais, pois já se foram trilhões de sóis a se por,e sempre a mesma coisa. Eu, essa pessoa que olha o por do sol, sem óculos escuros, e se emociona, o que dizer disso? Talvez se eu falar das flores? Dessas que para nada servem no mundo, que observo nos vasos improvisados da varanda, e vejo apontar um botão, e acompanho o acontecimento até que elas se mostrem em cores… Mas, como é que se pode logo nessa fase de guerras, traições e disputas pelo poder, se falar em flores? Seria só para não dizer que não falei… Mas, deixemos de lado as flores.
Quem sabe se eu contar sobre os novos hábitos que ando adquirindo e que me levam a viver em cidade pequena estando na cidade grande, me leva ao passado estando com os dois pés bem colocados no tempo presente? Acontecimentos do tipo comprar frutas e verduras em uma kombi que passa na rua em que moro, e eu converso com o vendedor sobre coisas de terra, de roça, esse mundo distante, quase outro planeta. E na cozinha descubro frutas com cheiro e gosto de frutas, verduras pequenas e coloridas, tudo tão verdadeiro que a gente até lembra que são plantadas e colhidas, e que existem os que plantam e colhem. Mas, nem tudo na vida obedece a essa lógica, tantas vezes se planta e nada resta a se colher. E isso também já é outro assunto que, inevitavelmente, vai desandar em filosofia rasteira, de site de frases feitas não sei pra quem. Então deixemos de lado as plantações e colheitas, fica o meu silêncio com gosto de laranja cravo.
É hora de mais um sol a se por, o mesmo sendo outro, em silêncio. Vou à cozinha transformar verduras em sopa. Deixar por hoje essa crônica que parece triste mas, escutem bem, para além do silêncio, ela é musical!
