Andando pelas ruas da cidade me deparo com cenas que já não via, e que não sentia saudade.

Vi uma mulher pedindo ajuda (comida, dinheiro, roupa…) com uma criança no colo. Ela usava um vestido surrado, chinelo nos pés e os olhos de desesperança quase cobertos pela máscara, uma tentativa de se proteger de um vírus que já escolheu as suas principais vítimas. Sim, essa mulher é uma delas.

Encaixado na sua cintura, usando apenas um shorts, uma criança. Uma menina que aparentava estar ainda no seu primeiro ano de vida, mas não me surpreenderia se essa percepção estiver errada.

As duas totalmente expostas. Expostas à doença, expostas à fome, expostas à violência, aos julgamentos, as dores de quem acorda para sobreviver e dorme como sobrevivente.

Essa mulher e essa criança não chegaram naquele sinal por nada. Elas são a “resposta” de um Brasil que tolera a fome, a morte, o racismo, a exclusão, o preconceito, o feminicídio… em nome da pátria decente, em nome das pessoas de bem, da família, de Deus (que é um bem diferente daquele que acredito).

Essa mulher e essa criança são chamadas de “perdas colaterais”. São o “preço” para que o Brasil volte a ser aquele país ensolarado, da empregada levando o cachorro para passear enquanto a patroa pinta as unhas.

Essa mulher e essa criança são o retrato de que a construção de uma sociedade melhor demorar anos, e a sua destruição acontece em apenas meses.

Essa mulher e essa criança esfregam na nossa cara o quanto esse caminho é cruel e impiedoso, mas é óbvio, tudo é válido pelo direito de sair orgulhoso desfilando com a sua camisa amarela, não é?

(Texto publicado em 14 de setembro de 2020)

Dani Rabelo

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