O início deste texto vai dialogar diretamente com você que acompanhou o seriado Friends quando ele ainda estava sendo produzido, ou para você que só foi se familiarizar com o cotidiano do grupo de amigos formado por Rachel, Monica, Phoebe, Joey, Chandler e Ross. E isso pelo simples motivo de que vou falar um pouco da minha experiência lendo Amor em Manhattan, o primeiro livro da série Para Nova York, com amor, de Sarah Morgan.
Assim como algumas pessoas já tinham alertado, essa seria uma associação quase impossível de fazer. Paige, Eva e Frankie, junto com os agregados Matt (irmão de Paige) e Jake (melhor amigo de Matt), são os protagonistas dos três primeiros livros da série (tivemos uma ampliação com personagens que aparecem como coadjuvantes nas histórias anteriores) e possuem uma aura do grupo que resultou em uma série de TV com um total de dez temporadas.

Quando eu falo dessa associação livro/série, coloque no pacote o cenário, afinal, estamos em Nova York, um trio de amigas inseparáveis (cada uma com personalidades muito bem definidas), um apartamento e uma sacada que serve como quartel-general de muitas passagens importantes, amizades que se transformam em romance, falas engraçadas… mas, porém, contudo, todavia… assim como Friends, também temos algumas problemáticas.
Ainda sobre essas problemáticas, vou citar apenas uma, e essa vai na base de tudo: temos um grupo de amigos padrão. Se é necessário que eu seja mais explícita, lá vai: pessoas brancas, mulheres magras, cabelos lisos (no máximo ondulados), homens musculosos, altos e bem-sucedidos.
Sei que algumas pessoas podem achar chato esse tipo de colocação, porém, precisamos insistir em que a representatividade importa. Que, assim como na vida, a literatura também precisa fazer parte da quebra desses estereótipos. Eu posso até me enxergar em algumas das personagens principais, no entanto, isso vai mais para a sua personalidade do que para o seu físico (e olha que, dentro do cenário social, eu até entro na categoria “padrão”). E seria tão bom que elas fossem negras, indígenas, asiáticas, com um corpo real (o mesmo vale para os personagens masculinos).
Chegamos ao livro em si
Bem, passando por esse destaque importante feito acima (e eu poderia escrever um longo texto falando sobre tantas outras coisas), vamos para a minha experiência com a leitura, e isso começa com a escrita da Sarah. Sim, a Sarah escreve de uma forma fluida e linear (em alguns pontos, a conversa entre os personagens parece girar em círculo? Sim, porém, nada que estrague o conteúdo).
Gosto da forma como ela traz os cenários (alguém conseguiu segurar a vontade de conhecer os locais que são citados no livro?), do jeito como ela descreve a estética dos ambientes… Isso facilita, e muito, a imersão da leitora e do leitor dentro da história. Sabe aquela sensação de ler algo e ainda assim perceber tudo aquilo que acontece ao seu redor? Em vários momentos, me senti captada pelo enredo, e isso já garante uma estrela na minha avaliação final.
Então, agora, é o momento de me debruçar sobre as percepções que tive sobre os indivíduos e o casal Paige e Jake.
Paige, na minha visão, entre as três amigas, é a mais “real”. Ela é corajosa, porém, também tem medo. Ela é decidida, porém, também possui dúvidas. Ela é independente, porém, também quer ter uma pessoa para compartilhar a vida. Nada de absolutismo. Nada de preto ou branco. Paige possui todas as nuances de cinza que uma mulher (uma pessoa) real tem. Dito isto, sim, queria a Paige na minha lista de amigas para tomar um café, um vinho e comer sorvete direto do pote.

No entanto, “para não dizer que não falei das flores”, senti falta, no primeiro livro, de mais detalhes sobre a adolescência da Paige na ilha. Fiquei um tanto confusa em me situar sobre qual o período da doença (e isso, devo admitir, ficou ainda mais confuso ao ler o livro da Frankie). Achei que a doença dela poderia ser mais bem trabalhada. Sei que a doença da Paige “não é ela”, mas fez e faz parte de quem ela foi e é. Senti falta de pinceladas mais fortes na tela que é a vida dela.
Chegou a hora do Jake? Sim!
O Jake entra na categoria dos “mocinhos” clássicos: alto, músculos definidos, charmoso, olhos penetrantes, sex appeal nas alturas, tipo indiferente, um tanto ranzinza, um quê de humor, rico… Um Grey menos quebrado. Um príncipe mais malicioso. Nada novo sob o sol. Um feijão com arroz bem feito que faz a gente salivar (e essa pode nem ser uma afirmação tão metafórica assim).
Assim como a história da Paige, eu queria saber mais do Jake. Teria espaço para isso no livro? Provavelmente não, porém, precisava registrar o meu desejo. Sobre as questões dele em não querer se envolver afetivamente, romanticamente, amorosamente… com outra pessoa e a promessa de não se envolver com a irmã do melhor amigo: tudo pareceu muito completo, no entanto, se resolveu rapidamente. Só eu achei isso? Me incomodou? Não ao ponto de revirar os olhos, todavia, o suficiente para mais um registro.
Sim, a Paige e o Jake funcionam juntos para mim. Os pontos fortes e fracos de cada personagem acabam encontrando um denominador comum, e a gente fica querendo vê-los mais nos outros livros interagindo juntos com o grupo de amigos. A Paige não se deixa engolir pela paixão adolescente, mantendo a sua personalidade e individualidade, e o Jake fica longe de fazer o tipo “homem das cavernas”, “macho alfa” e dominador.
O casal Paige e Jake são uma bela porta de entrada para a série Para Nova York, com amor.
E os livros continuam… e a minha leitura também. Que venham Frankie e Matt!
Dani Rabelo

2 comentários em “Resenha Literária: Um feijão com arroz muito bem feito”