No final de janeiro, a pesquisa da JLeiva Cultura & Esporte trouxe dados importantes sobre o acesso à cultura no Brasil. Esses números não são apenas estatísticas; eles revelam um panorama sociológico da nossa sociedade. Afinal, será que a classe trabalhadora não vai ao cinema ou ao teatro simplesmente porque não quer? A resposta, como veremos, é mais complexa.
Vamos começar com os dados que chamam a atenção:
– 48% das pessoas entrevistadas escolheram o cinema como principal atividade cultural fora de casa, mas não foram a uma sala de cinema nos últimos 12 meses.
– 36% nunca visitaram um museu.
– 38% nunca assistiram a uma peça teatral.
Esses números mostram que, embora haja interesse, o acesso à cultura ainda é limitado para boa parte da população. A pesquisa também revela que as atividades culturais que podem ser feitas em casa, como ler livros (62%) ou jogar videogames (51%), são as mais acessíveis. Afinal, para essas atividades, não é necessário se deslocar.
A Pandemia
Entre 2017 e 2024, houve um recuo no consumo de atividades culturais, com exceção dos jogos eletrônicos. A queda foi mais acentuada entre homens, indígenas e pardos. Segundo os organizadores da pesquisa, a pandemia de COVID-19 teve um papel crucial nesse cenário. O confinamento acelerou a migração para o mundo digital, gerou insegurança em frequentar espaços fechados e reduziu temporariamente a produção cultural.
Além disso, a perda de renda durante a pandemia agravou a situação. Muitas pessoas tiveram que priorizar necessidades básicas em detrimento de atividades culturais. No entanto, há uma esperança: a pesquisa mostra que muitos entrevistados que não foram a shows, museus ou teatros demonstraram grande interesse em participar desses eventos.
Desigualdades Sociais
O acesso à cultura no Brasil está diretamente relacionado à cor da pele, à classe social e às políticas públicas de promoção cultural. Os dados mostram que as pessoas que mais frequentam atividades culturais são brancas, jovens, com maior escolaridade e melhor condição econômica. Em outras palavras, uma minoria privilegiada.
As mulheres, embora demonstrem mais interesse em atividades culturais, enfrentam mais barreiras para participar delas. Afinal, muitas são responsáveis pelo cuidado da casa, dos filhos e da família, o que limita seu tempo e mobilidade.
A escolaridade também é um fator determinante. Enquanto apenas 9% das pessoas com ensino fundamental foram ao teatro, esse número sobe para 40% entre aqueles com ensino superior. No caso do circo, os percentuais são 9% e 17%, respectivamente.
Quando olhamos para a classe econômica, as diferenças são ainda mais marcantes. Apenas 3% das pessoas das classes D/E foram a concertos, contra 20% da classe A. Na leitura, os números são 41 e 81%, respectivamente.
Como Mudar Esse Cenário?
A pergunta que fica é: como podemos mudar esses números? A resposta passa por políticas públicas e sociais que garantam:
1. Distribuição de renda: Para que as pessoas não precisem escolher entre comer e ir ao cinema.
2. Educação de qualidade: Quanto maior o nível educacional, maior o acesso à cultura.
3. Descentralização da cultura: Levar eventos e espaços culturais para além das áreas ricas e das grandes cidades.
A Constituição de 1988 já prevê que “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.” No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer.
O acesso à cultura é um direito fundamental, mas ainda está longe de ser uma realidade para todos os brasileiros. Enquanto parte da sociedade desfruta de cinema, teatro e museus, outra parcela sequer tem a oportunidade de escolher. A mudança desse cenário depende de um esforço coletivo, que envolve desde políticas públicas eficazes até uma mudança de mentalidade social.
Afinal, cultura não é luxo; é essência.
