Hoje é dia de resenha! Atrasada? Sim. Porém, eu não poderia deixar de compartilhar a palavra de “Os Davenport” com você. Então, vamos lá?
Para começar, é importante saber que “Os Davenport” foi escrito por Krystal Marquis e lançado no Brasil pela Editora Alt em 2023. O livro tem um formato um pouco menor, com páginas amareladas (que adoramos) e um total de mais de 400 páginas.
A obra, que traz no título o sobrenome da família principal, se passa em Chicago, nos Estados Unidos, em 1910, e nos apresenta a vida de quatro mulheres negras: Olivia e Helen Davenport, Amy-Rose e Ruby.
Para entender melhor o cenário, aqui está um breve resumo dos eventos nos Estados Unidos antes e depois de 1910:
– 1865 – A escravidão é abolida nos Estados Unidos pela 13ª Emenda à Constituição.
– 1878-1905 – Surge o sistema “Jim Crow”, uma segregação formal e informal que afeta todos os aspectos da vida dos negros nos estados sulistas. A segregação e o racismo informal persistem nos estados do norte.
– 1896 – No caso Plessy v. Ferguson, a Suprema Corte dos Estados Unidos estabelece a segregação racial como doutrina constitucional.
– 1909 – É fundada a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), por brancos progressistas e o historiador e sociólogo negro W.E.B. DuBois, para lutar legalmente pelos direitos civis e contra a discriminação racial na educação, nos serviços públicos e no trabalho.
– 1910-1960 – Ocorre a “grande migração” de negros do sul para as cidades do norte e oeste dos Estados Unidos.

Nesse contexto histórico, Krystal nos presenteia com um livro que oferece uma pesquisa histórica de qualidade, apresentando protagonistas imperfeitas (ou seja, reais), personagens vítimas de seu tempo, e passagens que nos fazem questionar que tipo de seres humanos fomos, somos e poderemos ser.
Com base no que foi mencionado acima, é evidente que “Os Davenport” se tornou um dos meus livros preferidos. Tenho uma predileção por romances de época que incorporam fatos históricos à narrativa.
Nos primeiros capítulos, a autora nos coloca, juntamente com Olivia (a filha mais velha da família Davenport), em uma situação que eu, sendo uma mulher branca, nunca enfrentarei. Ah! Preciso dizer que a família Davenport é proprietária de uma fábrica de carruagens e se destaca como uma das poucas famílias negras com grande fortuna acumulada nos Estados Unidos.
Voltando…
Olivia, ao visitar uma loja de tecidos, é “recepcionada” por uma atendente que diz: “Você pode pegar o pedido da sua senhora no balcão…”.
“Naquele momento, suas boas maneiras não importavam. Sua beleza não era um escudo. Todas as jovens diante dela podiam ver a cor de sua pele. Olivia endireitou a postura e apontou para o maior broche adornado com joias na vitrine à sua frente.”
Essa é apenas a primeira passagem que nos transporta para a realidade das pessoas negras em 1910, mas que também poderia ser a vivência de uma pessoa negra em 2025. Entende a importância deste livro?
“Os Davenport” é uma leitura necessária em uma sociedade que ainda julga, segrega e mata por causa da cor da pele. Nas suas mais de quatrocentas páginas, vemos por que algumas pessoas se opõem abertamente a essa realidade (arriscando suas vidas), enquanto outras escolhem caminhos diferentes, que não podemos julgar como covardia, mas talvez como instinto de sobrevivência e/ou proteção.
Para mim, não foi uma leitura fluida, e não por culpa da escrita da autora. A história real não é apenas um pano de fundo; muitas vezes, torna-se tão ou mais importante que o enredo dos protagonistas. Precisei parar várias vezes para respirar e entender que aquelas linhas narravam uma parte da história da nossa sociedade que nunca deveria ter existido.
Quanto ao romance, posso dizer que há histórias de amor para todos os gostos, protagonistas apaixonantes, frio na barriga, cenas quentes (nada explícito), mas, acima de tudo, muita realidade.
Neste livro, não descobriremos o final das histórias dessas quatro personagens. O desfecho é aberto e inconclusivo, e descobri que o livro já tem uma sequência lançada nos Estados Unidos. Quando a Editora Alt trará essa continuação para o Brasil? Ainda não sabemos (espero que em breve).
Para encerrar esta resenha (que já está demasiadamente longa), preciso confessar que, embora adore as histórias de amor de Olivia, Helen, Amy-Rose e Ruby, amei ainda mais a parte histórica (sim, estou sendo repetitiva, eu sei).
Para mim, “Os Davenport” é um “livro de história” com pitadas de ficção. Perfeito para um Clube do Livro (fica a dica para professores do ensino médio). Perfeito para quem acha que evoluímos muito. Perfeito para questionar a sociedade que queremos. Perfeito para entender qual é o seu lugar neste mundo e de qual lado da história você quer estar. Perfeito para te inquietar e te fazer agir.
