Quando se é mulher, aprende-se que tudo pode ter um “porém”, um “então”, um “mas”… Não é de hoje que sabemos que as mulheres vivem mais do que os homens (daí vem o “porém”); contudo, de acordo com o estudo do Instituto McKinsey Health (MHI), feito com mulheres da América Latina, passamos mais tempo com menos saúde.
Esse parágrafo acima poderia ser um resumo deste texto. Talvez ele nem precise de explicação (olha o “no entanto”), no entanto, sempre é bom compreender os pormenores que resultaram nesta constatação (que, na prática, a gente já sabia).
Historicamente, nos foi atribuído o papel de cuidadoras. Cuidamos dos irmãos, dos pais, dos filhos, do marido, e assim por diante. O resultado é uma vida sobrecarregada (afinal, ainda temos o trabalho – e se a sua escala é 6×1, a situação só piora) e acabamos nos negligenciando. Soma-se a isso diagnósticos errados ou tardios para mais de 700 doenças.
Achou pouco? É importante mencionar que nós, mulheres, arcamos com custos mais altos em cuidados de saúde, gastando 18% a mais do que os homens.
Outro dado que posso destacar da pesquisa é que apenas 5% das doenças nas mulheres são devido a condições específicas do sexo feminino (como saúde materna e cânceres ginecológicos). Outros 4% são causados por condições que afetam a mulher de maneira diferente, como doenças cardiovasculares, e 47% são por doenças que as afetam de forma desproporcional, como as autoimunes ou a enxaqueca.
Lembra da informação sobre “diagnósticos errados ou tardios”? Muitas de nós não somos levadas a sério nas consultas. Quem nunca relatou o que estava sentindo para um médico que fez pouco caso ou não investigou a fundo o que estava sendo relatado?
A maneira como os médicos (e, por favor, não estou falando dos bons profissionais) interpretam nossas dores pode variar de acordo com a percepção que têm dessa dor (especialmente médicos homens). De acordo com a pesquisa, “essa diferença de percepção pode levar a interpretações machistas e equivocadas sobre a intensidade da dor relatada pelas mulheres”.
Segundo um estudo da Proceedings of the National Academy of Sciences (divulgado em 2024), médicos tratam de maneira desigual a dor entre homens e mulheres durante as consultas médicas. A constatação, feita com base nos atendimentos em hospitais de Israel e dos Estados Unidos, revelou que as mulheres esperam mais tempo para atendimento e têm menos chances de receber analgésicos do que os homens.
Uma frase de Alex Gileles-Hillel, coautor do estudo e médico-cientista do Centro Médico da Universidade Hadassah-Hebraica em Jerusalém, resume bem isso:
“As mulheres são vistas como exageradas ou histéricas, enquanto os homens são vistos como mais estoicos quando reclamam de dor”.
Para finalizar este texto, não podemos deixar de fazer um recorte muito importante: no Brasil, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) aponta que as mulheres negras têm acesso reduzido à saúde em comparação com a população branca. Temos 11,9% dos negros e 11,4% dos pardos que foram alvo de discriminação nos serviços de saúde.
Dessa porcentagem, entenda que o maior grupo populacional do país são as mulheres negras, totalizando 60,6 milhões, sendo 11,3 milhões de mulheres pretas e 49,3 milhões de mulheres pardas, que juntas representam mais de 28% da população brasileira.
Esperamos, e eu realmente espero, que pesquisas como essa não se tornem apenas números catalogados e esquecidos em revistas, publicações ou arquivos. Precisamos de uma real mudança na sociedade, onde teremos um cenário de mulheres que vivem mais e com qualidade. Mulheres sendo ouvidas, tendo seus relatos considerados (e não minimizados). Mulheres negras e pardas com acesso a uma saúde de qualidade e sem discriminação.
