A cerimônia do Oscar está batendo na porta, e o Brasil, pelo menos a sua maioria (nem vou dizer quem é do contra), está na torcida pelo filme “Ainda Estou Aqui” e por Fernanda Torres. Mas, esse texto não é sobre o filme, que, caso você ainda não tenha visto: veja.

O texto de hoje é sobre uma canção lançada em 1971 e sobre um cara que fez parte da turma do ieieie. Estou falando do tremendo Erasmo Carlos e da música “É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”.

Após o lançamento do filme e todas as suas premiações e indicações, além da exibição em vários países, isso fez com que a música tivesse um aumento de 455% de reproduções em um dos principais streamings de músicas do mundo.

“É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo” faz parte do álbum “Carlos, Erasmo”, e foi feita em parceria com Roberto Carlos, acredite. Como diz o próprio Erasmo: esse LP seria o primeiro da sua fase adulta. Para você entender, o momento que esse álbum e essa música foram lançados, temos um país sob a ditadura militar e à frente o presidente Médici. Ele assume logo após Costa e Silva, com um contexto de crescente repressão política após o AI-5, um forte autoritarismo, intensa censura e repressão aos opositores. Ao mesmo tempo, o Brasil vivia o chamado milagre econômico, que resultou na explosão da dívida externa e foi caracterizado por um rápido crescimento econômico, mas, também, o aumento das desigualdades sociais.

Sobre a composição, para não ser censurado, Erasmo, assim como outros compositores, se utilizou da metáfora para falar aquilo que queria, porém, não explicitamente. Em “É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”, ele traz uma pessoa que acabou de chegar de uma longa viagem, cheia de obstáculos. Ao longo dos versos, ele menciona cenas de horror e reforça a necessidade de mudança dessa realidade.

Na primeira parte da música:
“Eu cheguei de muito longe / E a viagem foi tão longa /
E na minha caminhada / Obstáculos na estrada /
Mas enfim aqui estou.”

Temos exatamente essa chegada. E essas cenas podem ser interpretadas como os horrores provocados pelo regime militar: a censura, a repressão, a violência…

Já na segunda parte:
“Mas estou envergonhado / Com as coisas que eu vi /
Mas não vou ficar calado / No conforto, acomodado /
Como tantos por aí.”

Ele se declara envergonhado e afirma que não vai ficar calado e acomodado. Aqui temos uma crítica aos que sabiam dos casos mais horríveis e não faziam nada para mudar essa situação.

No refrão:
“É preciso dar um jeito, meu amigo /
É preciso dar um jeito, meu amigo /
Descansar não adianta / Quando a gente se levanta /
Quanta coisa aconteceu.”

Erasmo fala sobre a vontade de agir diante dessa realidade, e a repetição disso traz a urgência por mudança.

Na parte final:
“As crianças são levadas / Pela mão de gente grande /
Quem me trouxe até agora / Me deixou e foi embora /
Como tantos por aí.”
Podemos ter uma referência à tortura e ao sequestro dos filhos de pessoas que lutaram contra a ditadura, mas algumas pessoas também interpretam como a manipulação política das novas gerações pelo regime autoritário. Uma espécie de alerta, para que os jovens não sejam alienados pela repressão.

Mesmo que você não tenha assistido ao filme, e escute apenas a música, vai sentir, através da letra de Erasmo, o peso de um período da história, o medo e, ainda assim, a esperança.

Uma curiosidade: existe uma história de quando Erasmo Carlos participou de um programa do Silvio Santos, em outubro de 1970, e ergueu o braço com o punho cerrado. Esse gesto era visto como algo de comunista. Seu nome foi parar no relatório da Divisão de Censura de Diversões Públicas. O relatório diz que não seria a primeira vez que o artista correspondia às palmas do público fazendo o gesto.

Ah! Na época, o cinegrafista responsável pela transmissão do programa também foi acusado de “focalizar a cena com insistência”.

Erasmo Carlos morreu aos 81 anos, no dia 22 de novembro de 2022, no Rio de Janeiro. Despontou nos anos 60 com a Jovem Guarda e levou a sua composição para um lado de contestação.

Dani Rabelo

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