14 de março de 2018.

Um dia difícil na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, como, aliás, muitas vezes era. No dia anterior, Marcello Crivella havia vetado um projeto que obrigaria a Prefeitura do Rio de Janeiro a divulgar o fluxo de caixa da cidade. Entre tantos compromissos, ela precisava estar na Lapa, no centro do Rio, para mediar o debate “Jovens Negras Movendo as Estruturas”, organizado pelo PSOL. Acabou chegando atrasada e se desculpou por isso.

Marcado para as 18h, o debate começou pouco depois das 19h, justamente para esperá-la, e durou cerca de duas horas. Para encerrar o encontro, ela escolheu uma frase da escritora negra americana Audre Lorde. A citação fazia parte de um trabalho de uma aula de inglês, e a tarefa pedia que ela citasse alguma mulher que tinha como referência.

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”, disse ela em português e em inglês.

Estava encerrada a atividade. Na animação das despedidas, ela falou: “Vamo que vamo, vamo junto ocupar tudo”. Entre tantos abraços, nas mãos ela segurava um caderninho e um celular. No caderninho, as anotações importantes. E no celular, ela interagia com o público que havia participado do encontro virtualmente.

Antes de deixar a Casa das Pretas, ela pensou até em tomar uma cerveja com suas companheiras de bate-papo. No entanto, o cansaço venceu, e ela desistiu do programa. Foi para o seu carro. E lá estava o seu companheiro de trabalho, um homem que estava nos seus últimos momentos do expediente e que, em seguida, também iria para casa.

Enquanto ela ia embora, um Chevrolet Cobalt prata emparelhou à direita do seu veículo. Um dos ocupantes disparou nove vezes contra ela, atingindo o vidro e parte da porta traseira direita do carro. O veículo andou mais alguns metros, e os criminosos fugiram.

Na noite do dia 14 de março de 2018, Marielle Franco foi assassinada com três tiros na cabeça e um no pescoço. Seu motorista, Anderson Pedro Gomes, foi alvejado três vezes nas costas. Ambos morreram no local. Uma assessora que também estava no carro, Fernanda Chaves, foi ferida por estilhaços.

O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes completa sete anos. A investigação se mostrou falha em vários aspectos. Ainda em novembro de 2018, o então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, via riscos de obstrução na Justiça. Na ocasião, anunciou que a Polícia Federal passaria a investigar a existência de um grupo criminoso que estava articulado para atrapalhar e impedir as investigações do assassinato.

Em março de 2019, os ex-policiais Ronnie Lessa e Élcio Queiroz foram presos pela Polícia Civil do Rio. Lessa, apontado como responsável pelos disparos que mataram a vereadora, e Queiroz, suspeito de estar dirigindo o carro usado no crime. Já em dezembro de 2023, o então ministro da Justiça, Flávio Dino, declarou que o inquérito sobre o caso estava em sua fase final, depois de ter sido intensificado naquele ano, mas criticou as investigações anteriores que, segundo ele, haviam desaguado em “apurações paralelas”.

No dia 24 de março de 2024, seis anos depois do assassinato e cinco dias após a homologação da delação de Lessa, a investigação se aproximava de um desfecho, com a prisão do deputado federal Chiquinho Brazão e do conselheiro do Tribunal de Contas do Rio, Domingos Brazão, suspeitos de serem os mandantes, e do delegado Rivaldo Barbosa, que chefiava a Polícia Civil do Rio e teria atuado para proteger os irmãos.

Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República, a motivação seria a atuação da vereadora contra a grilagem de terras em áreas controladas por milícias na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em coletiva de imprensa depois da prisão, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, afirmou que, durante cinco anos, as investigações conduzidas prioritariamente pela Polícia Civil do Rio foram “infrutíferas”, ao mesmo tempo em que agentes envolvidos no crime “lograram obstruir o avanço das investigações”.

Em 31 de outubro de 2024, um júri popular condenou os ex-sargentos da Polícia Militar do Rio de Janeiro Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz pela morte da vereadora Marielle e de Anderson. 78 anos e 9 meses de prisão para Ronnie Lessa e 59 anos e 8 meses para Élcio de Queiroz. Além do tempo de prisão, também foram punidos com o pagamento de uma pensão ao filho do motorista Anderson Gomes até que ele complete 24 anos. E o pagamento de indenização por dano moral para cada uma das vítimas: Arthur, filho de Anderson; Ágatha Arnaus, viúva de Anderson; Luyara Franco, filha de Marielle; Mônica Benício, viúva de Marielle; e Marinete Silva, mãe de Marielle.

O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes desencadeou uma onda de protestos em diversas cidades do Brasil. Também provocou comoção nas redes sociais, sendo o assunto mais comentado no antigo Twitter e ganhando destaque na imprensa internacional, como no jornal americano “The New York Times”, no inglês “The Guardian” e no francês “Le Monde”. O crime repercutiu na Organização das Nações Unidas e na comunidade internacional. Entidades como Anistia Internacional e Transparência Internacional exigiram, na época, resposta rápida do governo brasileiro.

Marielle Franco deixou um legado de luta, coragem e resistência que transcende o tempo e o espaço. Sua dedicação à defesa dos direitos humanos, especialmente das mulheres negras, faveladas e LGBTQIAP+, tornou-se um símbolo de esperança e inspiração para milhões de pessoas. Apesar da brutalidade de seu assassinato, sua voz ecoa mais forte do que nunca, lembrando-nos da importância de combater a injustiça e a desigualdade. Marielle vive em cada mulher que se levanta contra a opressão, em cada jovem que ocupa espaços de poder e em cada pessoa que acredita na construção de um mundo justo e igualitário.

Dani Rabelo

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