Hoje é dia de resenha do segundo livro da série “Clube do Livro dos Homens”, escrito por Lyssa Kay Adams. Preciso dizer que sempre fico com receio de ler o livro posterior de uma série em que o primeiro volume ganhou tanto o meu coração. Já adianto que “Missão Romance” não superou seu antecessor no romance, mas superou muito na temática. Sim, tenho dois rankings para essa série.

Temos aqui a história de Liv Papandreas (irmã da protagonista do primeiro livro) e Braden Mack (membro do Clube). Infelizmente, já no livro anterior, Liv não me cativou; ao contrário, em muitos momentos, senti raiva de suas atitudes. Um péssimo começo para nós duas.

Caso você esteja curiosa (ou curioso) para saber por qual motivo Liv não foi do meu agrado, a resposta é: ela possui uma personalidade mimada e dona da verdade. Como filha caçula, não me senti representada por ela.

Voltando ainda ao primeiro livro, várias de suas atitudes com o casal protagonista me tiraram a paciência e, em um livro em que ela é a personagem central, óbvio que isso iria escalar de forma estratosférica.

Agora, indo para outro lado, Liv possui questões profundas. A separação dos pais a atingiu de forma diferente da irmã. Uma decepção tão grande que se transformou na visão de que as pessoas precisam ser perfeitas: falta confiança, falta entender que as pessoas reagem de formas diferentes, que falham… Posso dizer que, no decorrer da história, ela tem um arco de redenção, mas, ainda assim, não é a minha protagonista preferida.

Liv não é uma má pessoa, mas talvez seja imatura demais para algumas questões da vida.

Vamos agora falar do nosso protagonista…

Uma coisa que Lyssa Kay Adams sabe fazer é escrever protagonistas que te conquistam. Eles possuem defeitos, pisam na bola, porém, no final das contas, você se pega suspirando por eles (estou falando do protagonista do primeiro livro e já adiantando os dos próximos). Não seria diferente com Braden.

No decorrer da trama, ele diz algumas verdades para Liv, e agradeço por fazê-lo. Temos um boy padrão? Temos. E, em suas falas, há frases importantes que vão de encontro justamente ao estereótipo criado.

Sobre o Clube do Livro dos Homens? Eles aparecem, você consegue dar boas risadas, porém, a temática da história se sobressai (e isso não é ruim).

A História de Fundo que Superou o Romance

O livro começa com Liv flagrando seu chefe (que é um chef – e isso não é spoiler, está na sinopse) assediando sexualmente uma funcionária. A descrição da cena foi feita de forma cuidadosa, mas isso não me impediu de sentir nojo. Em cerca de quatro páginas, você se coloca no lugar da vítima, e isso é horrível.

A partir desse ponto, Liv começa a articular uma vingança. Ela está errada em querer se vingar? Certamente não, porém, ela esquece que o terreno que está pisando envolve a forma como as vítimas convivem com esse trauma. Liv é aquela que não entende como uma mulher é assediada e fica calada. E quantas de nós já não fizemos essa mesma pergunta e não nos revoltamos?

A questão é que a autora nos apresenta a motivação da vítima em se calar, e fica impossível não se emocionar e não compreender. Essas mulheres tiveram não apenas o corpo, mas a alma tocada indevidamente. Mas sempre resta um pedaço, aquele que não foi atingido, e é esse que elas tentam proteger.

É o certo? Falando racionalmente, não. Mas estamos tratando de vítimas. Estamos falando de uma violência. Estamos falando de um trauma. Estamos falando de uma sociedade que culpa a mulher por tudo: pela maçã mordida, pelo assédio, pelo estupro e pela sua morte.

Os momentos da história em que esse tema está no centro foram, para mim, os melhores. E, entre todos os livros da série, esse “pano de fundo” foi o que mais me emocionou.

Indo para outro núcleo, temos uma senhora que ganhou meu coração: Rosie. É na casa dela que encontramos o livro feminista “Our Bodies, Ourselves” e um carro com um adesivo da frase “Uma mulher precisa tanto de um homem quanto um peixe de uma bicicleta”. Um ícone!

Rosie é da geração que queimou sutiãs e possui a sabedoria para dizer:

“— (…) a história foi construída por milhares de mulheres que acharam que eram ‘só’ donas de casa ou ‘só’ secretárias ou ‘só’ costureiras, até o dia em que elas ficaram de saco cheio e decidiram reagir.”

Lyssa Kay Adams me prendeu nas 318 páginas, e não foi pela história de amor dos protagonistas, mas pelo sentimento que envolveu as mulheres: aquela que viveu pela construção de uma sociedade em que nós pudéssemos ser o que quiséssemos, aquela que foi vítima de uma sociedade que se sente dona do nosso corpo e aquela que sente que nunca pode descansar.

Dani Rabelo

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