Que a inteligência artificial chegou de uma forma que não terá volta, isso é uma verdade absoluta. Verdade também que vamos precisar nos adaptar para usá-la sabiamente. Assim como também é verídica a informação de que vamos quebrar muita cabeça e errar bastante até que a máquina esteja devidamente azeitada. Acredito que esse dia chegará? Prefiro não responder a essa pergunta.

O terreno é nebuloso. Regulações ainda estão sendo construídas e são frágeis. Falamos sobre sanções e restrições, e isso em diferentes campos. No entanto, um dos setores que parece ser o “principal alvo” da IA é o criativo. Ou você não lembra da modinha do Instagram de transformar uma foto em uma ilustração e todo o debate feito sobre o resultado daquele material? Afinal, ele era feito com base nos personagens do Studio Ghibli, um estúdio de animação japonês fundado em 1985.

E por qual motivo escrevi tudo isso? Escrevi para relatar a péssima sensação que tive ao ver, em uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo (exibida no dia 27 de abril de 2025), o aviso na tela de que estava sendo utilizada IA na fala de uma entrevistada. A emissora fez uma mulher tailandesa falar português (quando, na vida real, ela não fala).

Foi utilizada na matéria uma ferramenta que faz a tradução e a dublagem para outro idioma usando a voz da própria pessoa.

Certamente você já deve ter visto isso em algum comercial (e isso já me causava desconforto), mas, em uma reportagem? De uma vez só, “dispensaram” um tradutor e um dublador. E, se não foram os dois profissionais, o tradutor pode ter feito apenas o trabalho de verificação — se a tradução tinha sido feita corretamente (de verdade? Duvido muito).

A Publishnews, na matéria intitulada “Uso de inteligência artificial para traduções no mercado editorial ainda não é regulamentado” (21/03/2024), falou sobre o uso da IA no processo de tradução e dialogou com agentes literários, editoras e tradutoras. Em uma parte do texto, a editora brasileira Karine Pansa, presidente da International Publishers Association (IPA), afirmou que ainda “não entendemos as consequências da IA sobre os direitos autorais”.

Ainda sobre o trabalho feito por tradutores, o texto traz a informação de que a IA não consegue traduzir nuances como ironia, figuras de linguagem e outras sutilezas. Porém, a tradutora Ana Beatriz C. F. Braga Dinucci, do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA), revelou que, se um ChatGPT não consegue fazer uma boa tradução de uma obra de Guimarães Rosa, “no caso de parágrafos de textos mais simples, é muito possível que haja de fato uma perda de mercado para tradutores, pois se tratam de traduções ‘menos densas’ e sem muita sofisticação”.

Aproveito também para destacar o seguinte trecho da matéria:

“Falar sobre a relevância do tradutor para o grande público em meio à ampla disseminação de uma ferramenta de inteligência artificial e a mentalidade do ‘faça você mesmo’ pode ser outro grande desafio.”

O uso da IA é realmente um caminho sem volta. Porém, é preciso não apenas colocar limites, mas, principalmente, não desvalorizar trabalhos e carreiras que parecem, desde sempre, ser vítimas da desvalorização.

Tradutores, dubladores, jornalistas, artistas… todos nós vamos precisar lidar e conviver com a IA. Se aliar? Possivelmente. Ser engolido por ela? Essa é a nossa luta — assim como fazer com que a sociedade entenda e reconheça a nossa importância. Afinal, como diz a frase da música dos Titãs: “A gente não quer só comida.”

Dani Rabelo

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