Eu juro que tento, mas fica cada vez mais complicado não falar sobre o uso da inteligência artificial na construção de textos. A última informação que me assolou foi uma galera dizendo que textos com travessão (–) no meio de uma frase é a confirmação de que foi escrito por IA, e ainda com insinuações de que seu uso pode estar sendo feito de forma incorreta.
Essa “constatação” rende tantas, tantas observações, que vou me ater a colocar apenas algumas poucas.
A primeira coisa é que fica parecendo que tem um pessoal que esqueceu, ignora ou não sabe da existência do travessão na língua portuguesa.
Sim! O travessão não só existe como possui várias funções, afinal, a nossa língua portuguesa é belíssima (apesar de, quando mais nova, xingar aquilo que hoje acho o mais lindo – que é a ampla possibilidade, significados e uso de tudo aquilo que faz parte dela).
*O uso do travessão foi proposital e esse texto não foi escrito por IA.
Aproveito aqui para agradecer aos meus professores de português, pois aqui vão as situações em que podemos usar este sinal de pontuação tão injustiçado e, pelo visto, subutilizado:
O travessão, um sinal de pontuação representado por um traço que deve ficar “flutuando acima da linha do papel” (grifo meu), é mais comumente utilizado para indicar a fala em diálogos, porém, entretanto e todavia (tcham, tcham, tachammmm…), ele pode ser usado para separar expressões intercaladas, destacar termos e substituir a vírgula ou o parêntese (em alguns casos).
Não é lindo o nosso português?
E por qual motivo trouxe para a sua lembrança este pequeno momento de aula de gramática? Pelo simples fato de que o uso do travessão no meio de um texto (seguindo aquilo especificado acima) está correto.
Se, por um acaso, a IA utiliza o travessão como um “separador”, ela demonstra o seu conhecimento da nossa língua.
E sobre o uso do travessão significar que o texto foi escrito por IA, Dani?
Sobre isso, sou eu que te pergunto: seria “apenas” por um sinal de pontuação que conseguiríamos identificar um texto feito por um “não-humano”?
Assim… eu uso nos meus textos alguns recursos para dialogar com você que me lê. Uso frases entre vírgulas, uso parágrafos e uso também o travessão. Seria a Dani da IMAGÍSTICA uma farsa? Não, eu apenas, sendo repetitiva, me utilizo das possibilidades que a nossa língua escrita me proporciona.
Mas então vem outra justificativa para essa galera achar que o travessão é a “pista comprovatória do uso da IA”: O texto é bem escrito. O texto é muito bom. O texto não possui erros.
Ah! É sério mesmo?
Chegamos no ponto em que duvidamos da nossa capacidade de escrever? Escrever bem? Escrever algo realmente bom? Algo sem erros?
Para mim, que entendo a escrita como uma das mais lindas formas de se expressar, acho essas suposições ofensivas e realmente tristes.
Preciso destacar que não sou uma entusiasta da perfeição. Existe realmente a possibilidade de você encontrar em algum texto, escrito por mim, erros de digitação, concordância, ortográficos… até mesmo uma estrutura textual um tanto quanto confusa.
Gosto quando isso acontece? Não. Tento evitar que isso aconteça, mas pode acontecer.
Porém, também é real pessoas escreverem bem, lindo e certo. Sim. Nós. Seres humanos. Seres pensantes. Temos a total capacidade de sermos maravilhosos. Incrível isso, não é?
Então, para não me alongar – já percebendo que já me alonguei – encerro esse texto na tentativa de fazer com que as pessoas: conheçam a nossa língua portuguesa, parem de usar IA para escrever textos, procurem outra coisa para identificar textos feitos por IA e reconheçam que a humanidade é capaz de produzir o belo (e o feio também).
Dani Rabelo
