E depois de uma vida de leitura (realmente parecia que eu nunca iria terminar esse livro), finalmente a última página chegou, e finalmente vou trazer para vocês a resenha do livro MÍDIA: PROPAGANDA POLÍTICA E MANIPULAÇÃO, de Noam Chomsky.
Um livro de bolso (realmente ele é pequeno no tamanho), com 112 páginas, que chegou ao Brasil pela editora Martins Fontes em 2014.
Justificando a minha demora em finalizar a leitura (e talvez eu nem deva me justificar, ainda assim, vou): são tantas informações, tantos detalhes e dados que, ao ler cada página, eu simplesmente precisava fazer anotações e marcações. Sem contar os momentos em que parei a leitura para pensar sobre aquilo que tinha acabado de ler. Explicação dada, seguimos…
Exatos onze anos separam a minha leitura do momento de lançamento do livro aqui no país, mas, acredite, o seu conteúdo permanece muito atual. É neste momento que registro a minha primeira dubiedade: se o livro permanece atual, significa que seu conteúdo e análise são muito bons; no entanto, isso também significa que, como sociedade, não estamos nada bem (para não dizer o mínimo).
Chomsky, um linguista, filósofo e ativista político, é um senhor que nasceu em 1928 (nos EUA) e já viu muita coisa acontecer. Ele se considera um “socialista libertário”, flertando ali com a anarquia.
E por qual motivo trago esta informação? Pelo simples fato de que ela será importante para a minha crítica sobre o livro. Mas, antes de falar sobre a minha opinião, acho que vale também trazer o significado de alguns termos.
Socialismo Libertário: Essa corrente do socialismo busca combinar os princípios do socialismo (propriedade coletiva ou social) com os da liberdade individual e da autonomia. Acredita que o socialismo pode ser libertário e que a liberdade é fundamental para o desenvolvimento humano.
Anarquismo: O anarquismo, como filosofia política, defende a rejeição à autoridade e à hierarquia, propondo a criação de uma sociedade sem Estado ou governo, onde as pessoas possam decidir livremente sobre seus próprios assuntos.
O livro em questão (MÍDIA: PROPAGANDA POLÍTICA E MANIPULAÇÃO), como o próprio título informa, faz duras críticas ao modo como a classe política dos EUA encontrou formas para “guiar” a mente da população através da mídia. Ele nos leva até os primórdios da história da propaganda política norte-americana, passando pela Guerra do Vietnã, pelas relações dos EUA com o Afeganistão (sim, temos também o 11 de Setembro), a Guerra no Golfo e, acredite, as relações do país com Israel.
Agora, indo para a minha experiência com a leitura, e dadas as explicações acima (socialismo libertário e anarquia), você vai entender que, sendo eu uma pessoa que acredita no socialismo (vou também colocar uma explicação sobre esse termo) e na democracia, me sinto incomodada com as primeiras páginas do livro, em que o autor dosa as suas críticas ao capitalismo e à democracia quase (eu disse “quase”) de forma igual.
Socialismo: Uma filosofia política, econômica e social que defende a propriedade social dos meios de produção em vez da propriedade privada, com o objetivo de alcançar uma sociedade igualitária e justa.
Nossa democracia é perfeita? Nem nos EUA, nem no Brasil e nem em outros países. Porém, entretanto, todavia, a questão são os estratagemas criados através de “brechas” (seria essa a expressão correta? Provavelmente não, mas segue o fio e segura a minha mão).
A democracia é o sistema político em que “o poder reside no povo”, seja diretamente ou através de representantes eleitos por ele. A Classe Dominante quer que o povo tenha poder? Óbvio que não. Porém, enquanto vivemos em uma democracia (e enquanto alguns trabalham para derrubá-la), eles vão criando mecanismos para que a população ou tenha uma menor participação ou, se a tem, que o resultado seja aquilo que eles (Classe Dominante) querem.
Entenda, essa crítica que faço não me faz desejar outro sistema político que não seja a democracia. O que precisamos é fortalecê-la. Fazer com que a população se aproprie do seu poder e responsabilidade e saiba blindá-la quanto aos estratagemas (já usei esse termo antes), desvirtuamentos e ataques vindos da Classe Dominante (do nosso próprio país e do outros – se é que você me entende).
É um caminho simples? Me diz: alguma coisa que coloque o povo com algum poder é simples de manter, defender ou aprimorar? Mas isso é necessário. Sempre necessário.
Também faz parte do amadurecimento e fortalecimento da democracia o entendimento da população de que a sua participação não é “somente” no dia da eleição, apertando o botão de “confirma”. Não. Faz parte da democracia acompanhar o dia a dia daqueles que foram eleitos. Não sermos reativos.
Bem, tudo isso que escrevi foi apenas a introdução desta resenha, afinal, só agora chegarei ao cerne da minha leitura – mas eu não tinha como não me posicionar quando o autor faz colocações que, aos meus ouvidos, soam de uma maneira incômoda.
Passando essa parte do livro e indo para os trechos em que Chomsky descreve como, no decorrer da história, os EUA utilizaram a propaganda governamental para guiar o seu rebanho pelo caminho interessante para eles: prepare-se para grifar e anotar muitas coisas.
Ele nos apresenta como, até mesmo os grandes empresários, em diversos momentos, também fizeram parte do rebanho.
Destaque para as partes sobre a explicação do motivo e de como foi vitoriosa a estratégia de criar o “Pânico Vermelho” e como isso resultou também na destruição de sindicatos e na eliminação de um grande problema que era a “liberdade de imprensa e liberdade de pensamento político”. Isso estamos falando no pós-Primeira Guerra Mundial.
Lembra do Kit Gay ou da Mamadeira de Piroca? Pois bem, essa estratégia não foi nada autêntica.
Outra coisa que preciso destacar é a parte em que Chomsky fala sobre a criação de slogans nos quais “ninguém vai discordar e todos vão apoiar. Ninguém sabe o que eles significam porque não significam nada. Sua importância decisiva é que eles desviam a atenção de uma questão que, esta sim, significa algo”.
Alguém mais lembrou de: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, ou “Pátria Amada Brasil”, ou “Deus, pátria, família”?
Quer mais uma?
“É necessário também falsificar completamente a história (…) passar a impressão de que, quando atacamos e destruímos alguém, na verdade estamos nos protegendo e nos defendendo de agressores e monstros perigosos (…)”.
Preciso lembrar de falas como: “nunca existiu escravidão no Brasil” ou “petistas devem ser metralhados”. E também tivemos o ataque às mulheres, homossexuais, indígenas… e a lista é longa.
Ao terminar de ler o livro, eu tive a plena certeza de que teve gente fazendo o “dever de casa” bem direitinho. Teve gente bebendo litros da fonte que são os EUA e o sucesso que é o uso que fazem da propaganda política (e da mídia) para manipular, não apenas a sua população, mas o mundo. Até quando eles estão errados, eles estão certos.
Se eu recomendo MÍDIA: PROPAGANDA POLÍTICA E MANIPULAÇÃO? Com certeza. Mesmo com as críticas – que justifiquei –, o apurado histórico contextual possui uma riqueza de detalhes que, em alguns momentos, me peguei falando: Eita!
Suas conclusões, a partir de fatos concretos, são reveladoras e assustadoras.
A experiência de ler, pela primeira vez, Chomsky é de nos depararmos com alguém que não quer apenas saber. Essa pessoa quer entender e tirar conclusões.
E o que fazemos com tudo isso? Como um bom cientista, que abomina o negacionismo: inativar o vírus e criar uma boa e eficiente vacina.
Dani Rabelo
