Precisamos falar sobre Juliana. Também precisamos falar sobre a negligência criminosa da Indonésia. E não podemos, principalmente, esquecer de falar sobre uma sociedade que, mais uma vez, condena uma mulher quando, na verdade, ela foi a vítima.
Juliana era uma jovem que queria viver. Queria ser livre. Certamente, durante sua breve vida, ela sabia o quanto essa ‘escolha’ lhe cobraria um preço. Mas acho que não esperava que esse preço seria cobrado até mesmo após sua morte – uma partida que nunca deveria ter acontecido.
Ela fez parte, numericamente, do grupo de pessoas (de diversos países) que todo ano buscam a Indonésia como destino turístico. E um dos passeios mais incríveis é justamente o Monte Rinjani.
Juliana não estava sozinha. Estava com um guia, com um grupo, fazendo algo que muitos já fizeram, muitos ainda fazem e, certamente, muitos ainda farão. A diferença é que o mesmo país que se vende para o turismo não tem estrutura para lidar com um acidente quando ele acontece.
E sim, acidentes acontecem. Mesmo com toda segurança, imprevistos são possíveis. Mas, no caso de Juliana, o que vimos foi a completa ausência de suporte.
Ela escorregou e continuou viva. Juliana ficou assim por quatro dias. Ao relento, machucada, com sede, com fome e com medo. Ah! E como “companhia”, teve um drone – que fez o “magnífico” trabalho de encontrá-la, registrar tudo – imagens que apertam o coração só de lembrar. E eu me pergunto: como deve ser para a família ver isso?
Nenhum drone para levar ao menos o mínimo que a ajudasse a aguentar até o resgate. Essa tecnologia incrível transformou sua tragédia em um Big Brother. Ela, no papel principal, assistida por todo o mundo.
E o que o governo da Indonésia fez? Fez pouco. Muito pouco. O resultado desse “pouco” foi divulgado dias atrás: Juliana não sobreviveu.
Como se não bastasse o horror, Juliana foi considerada culpada por sua própria tragédia. Afinal, ela devia seguir o modelo “bela, recatada e do lar” – “família, filhos e tal”, como diz a música do Kid Abelha.
Talvez Juliana quisesse tudo isso. Ou talvez não. Não importa. Juliana nunca teve culpa, mesmo que a sociedade insista em dizer que “aquele não era seu lugar”.
Sabe qual era o lugar de Juliana? Qualquer lugar que ela quisesse. Qualquer um.
Se, ao comemorar sua morte, eles acham que nos enfraquecem, sinto dizer: o efeito é exatamente o oposto. Julianas continuarão a existir, conscientes ou não de que são nossa resistência. Conscientes ou não de que fazem história.
Será que a história de Juliana virará um filme? Se virar, espero que mostrem que ela se salvou. Que ela se salvou sozinha, esfregando na cara de muitos que ela tinha todo o direito de estar ali, de viver, de ser livre e de sobreviver.
Dani Rabelo
