O ano é 2025 e em julho tivemos a notícia de que o livro Capitães da Areia, de Jorge Amado, lançado em 1937, deveria ser retirado das escolas.

O motivo? O uso do livro como uma forma da esquerda brasileira querer se infiltrar nas escolas e, certamente, na mente dos estudantes. Temos também o racismo estrutural inserido nesse desejo de censura, afinal, provavelmente os protagonistas do livro são crianças negras, isso a gente não pode afirmar. Porém, conhecendo a extrema direita…

Eu não vou aqui falar sobre o absurdo dessa censura, dessa justificativa. Afinal, é a extrema direita fazendo aquilo que ela sabe fazer: odiar a cultura, falar mentiras e tocar o terror.

Dito isto, eu quero falar sobre essa obra, seu autor e o quanto esse livro é transformador.

Fazendo um resumo bem rápido, esse livro de Jorge Amado retrata a vida de um grupo de menores abandonados que crescem nas ruas da cidade de Salvador. No decorrer das páginas, nos deparamos com eles vivendo em um trapiche, em um ambiente hostil, roubando para sobreviver, e esse grupo recebe o nome de Capitães da Areia.

O que temos em Capitães da Areia – que é uma obra de ficção – é a forte influência da realidade social da época em que foi escrito. As crianças de rua da história eram o retrato das crianças que o próprio Jorge Amado conhecia em Salvador. Por isso temos uma narrativa tão autêntica e impactante.

Quando Capitães da Areia começou a se popularizar, Jorge Amado era um jovem de 25 anos politicamente engajado. O arco da história dessas crianças (vindas de uma classe oprimida, marginalizada e rejeitada pela sociedade) e transformadas quase em heróis, fazia parte de tudo aquilo que Jorge Amado acreditava e defendia na época.

Indo para novembro de 1937, temos uma fogueira na Cidade Baixa de Salvador, a poucos passos do Elevador Lacerda e do atual Mercado Modelo. Nela, militares e membros da Comissão de Buscas e Apreensões de Livros, grupo nomeado pela Comissão Executora do Estado de Guerra do governo, estavam ali assistindo à destruição da chamada “propaganda do credo vermelho”. Essa era uma definição das autoridades do recém-instalado Estado Novo de Getúlio Vargas, que resultou na queima de mais de 1,8 mil obras de literatura consideradas simpatizantes do comunismo.

Mais de 90% dos exemplares incinerados, recolhidos nas livrarias de Salvador, eram de autoria de Jorge Amado.

Desde 1930, o Brasil fervilhava em tensões políticas. Após a Intentona Comunista, tentativa de levante liderada pelo capitão do Exército Luís Carlos Prestes em 1935, o governo passou a perseguir não apenas membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), como intelectuais associados à ideologia de Moscou.

Sob o novo regime, não surpreende que Capitães da Areia, que trazia à tona as desigualdades sociais, crianças abandonadas pelo poder público, mas que no livro eram colocadas como sobreviventes, tenha engrossado a lista de livros censurados da época.

Jorge Amado, além de ser conhecido por sua militância de esquerda e retratar a desigualdade social em suas obras, tinha fortes laços com comunistas, entre eles, o escritor José Saramago.

Filiado ao Partido Comunista Brasileiro, foi eleito deputado em 1945, foi preso duas vezes e também foi um exilado político.

Um destaque – o fato de, posteriormente, Jorge Amado ter criticado os regimes socialistas não significa sua ruptura com o comunismo, mas sua postura crítica ao que acontecia na época – e estamos falando de Stalin na antiga União Soviética.

Agora falando sobre minha experiência ao ler Capitães da Areia… Pedro Bala, Sem-Pernas, Gato, Boa-Vida e Professor tinham mais ou menos a mesma idade que eu tinha na época em que li a história deles. E lá, eles tinham uma vida muito, muito diferente da minha.

Eu lembro que devorei o livro, e em apenas dias terminei uma das leituras que ficariam na minha memória para sempre.

Posso dizer que Capitães da Areia foi uma das peças fundamentais para a construção da minha consciência social – me fazendo enxergar as desigualdades existentes em nossa sociedade e a crueldade disso, plantando em mim, pela primeira vez, a indignação e o desejo de que o mundo fosse diferente.

Dani Rabelo

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