Desde o meu retorno ao mundo dos livros, e isso aconteceu logo no início da pandemia, confesso que tenho lido poucos autores nacionais, se comparados com as obras escritas por autores estrangeiros. E isso é algo que vem me causando um incômodo e aumentando a necessidade de mudar esse cenário. Sendo assim, já preciso dizer que A CABEÇA DO SANTO, de Socorro Acioli, foi a minha melhor escolha para instigar o meu desejo por mais leituras nacionais.
Ler esse livro me fez reviver a “maravilhosidade” que é a literatura brasileira.
Essa resenha começou pelo fim? Não tenha dúvida, mas era impossível para mim esperar os últimos parágrafos para dizer o quanto A CABEÇA DO SANTO entrou na lista dos meus livros preferidos do ano e da vida. Ah! Isso não tem nenhuma relação com a boa onda que ele passa, entrando na lista dos mais vendidos da Bienal do Rio de Janeiro 2025 ou da Amazon.
Fazendo um breve resumo, A CABEÇA DO SANTO conta a história de Samuel, que percorre o interior do Ceará (a pé) para cumprir promessas que fez para a mãe no seu leito de morte. Samuel se depara com a cabeça de um santo, que faz parte de uma estátua inacabada que seria montada na cidade de Candeia. Ao usar aquele espaço como abrigo, ele começa a escutar as vozes que ressoam dentro da cabeça daquele Santo Antônio gigante, e a partir disso temos o desenrolar da história.
Escrita a sinopse, é importante colocar que ela não revela 1% da história desse livro. Se o fato de um homem escutar vozes dentro da cabeça de um Santo Antônio te causou curiosidade e interesse… Meu bem! Durante as 176 páginas, você vai encontrar muito mais.
Além do protagonista, o Samuel, os outros personagens também têm seu momento de destaque, a vivência de cada um, as escolhas, o caminho como as histórias se intercalam…
Todo o mérito vai para Socorro Acioli, que, além de escrever um livro redondinho, nos presenteia com descrições que te levam para o interior do Ceará, te fazem enxergar Juazeiro e Candeia e escutar a rádio local. Me senti uma moradora daquela cidade. Quase como se eu estivesse com a minha boa cadeira sentada na calçada, vendo, de camarote, o desenrolar de tudo aquilo.
A CABEÇA DO SANTO é um romance com drama, com humor, com realidade, por que não um toque de realismo mágico, e, principalmente, com a alma nordestina. E isso não é “apenas” pela estética, mas pela essência. Das percepções, das conclusões, das soluções e da forma de enxergar o mundo. Talvez por isso eu tenha me sentido em casa.
Ao ler essa história, revivi o sentimento de ler Jorge Amado, Graciliano Ramos… E calma. Estou falando do sentimento.
Sei que Socorro Acioli tem uma caminhada na literatura nacional para construir e amadurecer, mas A CABEÇA DO SANTO, história que recebeu a bênção de Gabriel García Márquez, é um presente para a nossa literatura nacional. Uma história que traz o Nordeste sem caricatura, mas respeitando as nossas singularidades, essas que são tão, tão nossas.
Um adendo…
Não costumo escrever “notas e rodapés” nas minhas resenhas, mas A CABEÇA DO SANTO merece: parabéns para a estética da sobrecapa do livro feita pela editora Companhia das Letras e para Socorro Acioli, que me fez ter o desejo de querer uma das frases do livro tatuada na minha pele e enrolar, propositalmente, a leitura das páginas finais com pena de terminar o livro 😉
FICHA DE LEITURA
A Cabeça do Santo
Autora: Socorro Acioli
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Páginas: 176
Idade de Leitura: +14

