Quando se é adolescente, passamos horas e dias pensando em como será a nossa vida quando adultos (pelo menos comigo foi exatamente assim). Ficava imaginando a minha versão adulta, com responsabilidades e dona do meu próprio destino. Solteira? Com família? Filhos? Cão ou gato? Casa ou apartamento? CLT ou autônoma? Ainda na mesma profissão? Com diploma?

Cenários são criados, tão reais quanto as melhores novelas globais. Não negaria dizer que até mesmo diálogos são construídos. Reações antecipadas e, ao final, o roteiro da nossa vida parece muito bem escrito.

No entanto (e sempre existe um “no entanto”), esquecemos apenas de pensar em como serão os outros adultos que farão parte da nossa história. Protagonistas, coadjuvantes e figurantes que irão interagir conosco por todo o restante das nossas vidas. Afinal, existe uma delimitação para o tempo que se é criança, assim como para a pré-adolescência e a famigerada adolescência. Chegando à fase “adulta”, de lá só sairemos para aquele final que é o destino de todos.

Então, acreditando que essa será a fase que mais iremos viver, por que motivo nos preparamos tão pouco, ou quase nada, para os outros adultos?

Pode parecer ingenuidade minha. Talvez até seja mesmo, mas… se deparar com as possíveis versões de uma outra pessoa adulta pode ser enriquecedor e destruidor.

E não estou dizendo sobre pessoas “boas” e pessoas “más”. Estou falando de uma mesma pessoa que pode ser o mel e o fel. Utilizando-me de uma figura de linguagem: dois lados de uma única moeda. E todos nós somos assim. Todos nós.

O problema (ou mais um deles) é que os contos de fada e a própria sociedade insistem em fazer essa separação (dos bons e dos maus). Na prática, pessoas cruéis, acredite, podem ser boas para alguém. De uma forma deturpada? Sim. De uma forma sincera? Também sim. E pessoas boas, também, em momentos diversos, deixam aflorar a crueldade que existe nelas.

E esse é o ponto: A gente nunca espera esse lado dos “bons”. Seja você “o bom” ou a pessoa que está ao seu lado. E essa não preparação leva a um sentimento que vai além da raiva: a decepção.

Gostaria demais de ter tido essa “preparação”. Lidar com a raiva é muito mais coerente do que lidar com a decepção. Por mais que não pareça, a raiva toca em um lugar de racionalidade. Ela consegue até ser palpável. Concreta. A decepção é como nuvem (ou fumaça). Você não consegue tocar, mas você sente. Ah, se sente.

Ao começar a escrever esse texto, eu, sinceramente, não pensei em te oferecer uma resposta. Na minha caixinha de ferramentas, formada pelas minhas observações e vivências, não encontrei nenhum objeto que eu possa te indicar para “resolver” o estrago feito por uma decepção. Quem sabe, com a terapia, eu consiga fazer uma personalizada. Uma perfeita para as minhas decepções. Espero, de verdade, que você também consiga confeccionar a sua.

Dani Rabelo

Resumo
Na transição da adolescência para a vida adulta, dedicamos muito tempo a planejar nosso futuro profissional e pessoal, criando um “roteiro” idealizado para nossas vidas. No entanto, um dos maiores equívocos é não nos prepararmos para a complexidade dos outros adultos que encontraríamos nessa jornada. Este texto explora a dualidade humana – a ideia de que toda pessoa, inclusive as “boas”, possui um lado de sombra capaz de ações cruéis – e como a falta de preparação para essa realidade gera, não apenas raiva, mas uma decepção profunda. A reflexão propõe que entender e aceitar essa natureza complexa nas relações é um aprendizado essencial, ainda que tardio, para lidar melhor com as inevitáveis frustrações da vida.

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