Como uma criança que viveu o final dos anos 80 e os anos 90, tenho em meu histórico a experiência de “fumar” o famigerado “cigarrinho de chocolate”. Sim, um chocolate que era feito não apenas no formato, mas que também tinha uma identidade visual que se assemelhava à de um cigarro de verdade. O cigarro era visto como “normal” e, mesmo já se sabendo que ele era prejudicial à saúde, sua presença (com ou sem os fumantes) era aceita.

O que aconteceu depois de uma geração que foi fortemente bombardeada com informações (principalmente visuais) sobre como fumar era, acima de qualquer coisa, uma questão de atitude e de status, foi o trabalho de conscientização de que aquele pequeno objeto cilíndrico é uma droga, com um grande poder viciante e com danos graves à saúde.

Políticas de controle do tabaco no Brasil foram implementadas, entre elas: o aumento de impostos para a cadeia de envolvidos na produção de cigarros, a proibição de fumar em ambientes fechados e a restrição à publicidade (e nada mais de machos alfas mostrando toda a sua virilidade ao ostentar um cigarro, ou de mulheres fatais com as suas tragadas sensuais).

Fumantes passivos gritaram: Viva!

O resultado disso foi que, no ano de 1989, o Brasil tinha 35% de sua população fumante – dados da Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN – 1989), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já em 2023, o Ministério da Saúde trouxe um percentual de 9,3%.

Após esse “respiro”, nos deparamos com a notícia de que “pela primeira vez em quase duas décadas, o número de fumantes no Brasil aumentou, quebrando uma tendência histórica de queda. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde, a proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024. Um crescimento de 25% em apenas um ano” (Agência Brasil – 20/10/2025).

Sabe aquela percepção que você deve ter tido de ver mais pessoas fumando, não só o cigarro tradicional, mas também aquele cigarro eletrônico? Talvez não seja apenas uma impressão, mas a constatação de algo que parece real: mais pessoas estão fumando no Brasil.

Se a juventude não se sentia atraída pelos cigarros de papel, ela parece se encantar (e se enganar) com os vapes, pods, e-cigarettes, e-ciggy, e-pipe, e-cigar e, pejorativamente, “pen-drives”. Acredite, tem gente que acha que esses cigarros não viciam e não causam danos à saúde.

E, para não deixar nenhuma dúvida, o vape faz tão mal para quem não fuma quanto um cigarro tradicional. Eles liberam um vapor com substâncias como metais pesados, formaldeído, nicotina e outras substâncias tóxicas e cancerígenas, mesmo em versões que se dizem “sem nicotina”.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é uma pandemia. É a principal causa de morte evitável no mundo, com cerca de 8 milhões de óbitos por ano. Já foram confirmadas mais de 50 tipos de doenças que podem ser causadas pelo cigarro, com destaque para as doenças cardiovasculares, as respiratórias e também cerca de 10 tipos de câncer.

Então, ao que parece, as gerações posteriores à minha (sou uma representante da Geração X) estão nos levando de volta para os anos 80/90. Se um dia a Geração Z e os Millennials foram conhecidos por serem a “Geração Saúde”, afinal, eram eles que se destacavam por dar maior prioridade e atenção à saúde física e mental, em contraste com gerações anteriores, parece que a realidade nos apresenta algo ao contrário disso.

Dani Rabelo

Após um histórico sucesso no controle do tabagismo, que reduziu os fumantes no Brasil de 35% (1989) para 9,3% (2023), o país enfrenta uma preocupante reversão: dados do Ministério da Saúde mostram que o número de fumantes nas capitais saltou para 11,6% em 2024, um crescimento de 25% em um ano. Esse aumento, que quebra uma tendência de décadas, está diretamente associado à popularização dos cigarros eletrônicos (vapes), frequentemente percebidos de forma equivocada como menos nocivos. Apesar de conterem substâncias tóxicas e cancerígenas, esses dispositivos seduziram principalmente a Geração Z e os Millennials, invertendo a imagem de “Geração Saúde” e recolocando o tabagismo, uma pandemia evitável segundo a OMS, em pauta como uma grave ameaça à saúde pública.

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