Que o conservadorismo é algo que precisa ser enfrentado, lembre-se que uma das suas formas de atuação é através do aprisionamento de conhecimento. Neste mês de outubro, diversos sites no Brasil publicaram notícias falando sobre a quantidade de livros que foram censurados nas escolas e bibliotecas estadunidenses.

Antes de qualquer coisa, é bom explicar que não existe uma lei federal de censura de livros nos EUA, mas existem leis estaduais. O que nos é mostrado, através da Associação Americana de Bibliotecas (AAB), que monitora as tentativas de proibição de livros nos Estados Unidos todos os anos, e da PEN America, uma organização que defende a liberdade de expressão e monitora a censura de livros nos EUA, é que a quantidade de livros censurados aumentou significativamente e, além disso, as justificativas são questionáveis, assim como as obras censuradas.

Impulsionado por grupos de direita, estão sendo retirados das escolas e bibliotecas obras com:

  • Conteúdo LGBTQIAP+: Não são “apenas” os livros que tratam de identidade de gênero ou orientação sexual, mas histórias que trazem a vida de personagens homossexuais.
  • Racismo e assuntos de raça: Estão sendo consideradas inapropriadas obras que discutem a história da escravidão e o racismo sistêmico, assim como livros escritos por autores negros. Uma das justificativas usadas pelos censuradores é que essas obras promovem a “teoria crítica da raça”.
  • Conteúdo Sexual: Livros sobre educação sexual? Não pode, mesmo que exista uma especificação para a faixa etária adequada. Descrições sexuais, mesmo que sutis, também são justificativas para a retirada de livros das escolas e bibliotecas.
  • Linguagem considerada ofensiva: Não importando o contexto, livros que contenham uso de palavrões ou com linguagem forte estão na mira da censura.
  • Outros temas: Histórias que contenham temas como drogas e violência (e a forma como estão inseridos não é relevante para os censuradores), assim como obras que tenham um discurso considerado “anti-família”, com pontos de vista religiosos ou políticos divergentes também estão sendo censuradas. Lê-se que “pontos de vista religiosos ou políticos divergentes” fala sobre algo que não seja aquilo determinado pelos conservadores.

Algo importante precisa ser dito: Existem livros para cada faixa de idade. Determinar a idade adequada para ler uma obra é muito diferente de censura. Como colocado acima, algumas das críticas feitas pelas entidades americanas é que o aumento dos banimentos tem levado a desafios legais que questionam a constitucionalidade dessas leis com base na Primeira Emenda (que protege a liberdade de expressão) e a justificativas subjetivas para a retirada de várias obras.

Na prática, além da direita estar banindo diversos livros das escolas e bibliotecas, está acontecendo uma “censura preventiva”. Obras estão sendo retiradas desses locais com o objetivo de evitar o acionamento legal e processos dispendiosos.

Quer saber o quanto isso se reflete em números? Mais de 6.800 títulos foram vetados em 87 distritos escolares durante o ciclo acadêmico de 2024-2025.

Quer saber alguns dos livros censurados (e isso vai explicar muito sobre as verdadeiras intenções desse banimento – se é que não está compreensível): Laranja Mecânica (considerada uma das 100 melhores obras do século pela revista Time), obras de Stephen King (a lista é diversa e longa), obras de Sarah J. Maas (a gigante da Romantasia também está na mira dos conservadores), O Diário de Anne Frank, O Sol é para Todos, Fahrenheit 451 (um livro sobre uma sociedade do futuro que baniu todos os materiais de leitura e o trabalho dos bombeiros de manter as fogueiras a 451 graus – Irônico, não?), *1984*, a autobiografia de Maya Angelou, Corte de Névoa e Fúria (Sarah J. Maas) e As Vantagens de Ser Invisível.

Mas não se iluda achando que a censura estadunidense não chegou nos livros escritos por autores latinos. Também estão na lista: Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez), A Casa na Rua Mango (Sandra Cisneros), A Breve e Fantástica Vida de Oscar Wao (Junot Díaz), O Tempo das Borboletas (Julia Alvarez), Out of Darkness (Ashley Hope Pérez) e A Casa dos Espíritos (Isabel Allende).

Ao proibir esses livros (ou pressionar para que eles nem cheguem às escolas e bibliotecas), a direita estadunidense cria uma geração vítima de um empobrecimento intelectual e crítico. Pessoas que não saberão analisar, questionar e formar a sua própria opinião sobre o mundo. Cidadãos formados com base em uma compreensão incompleta e distorcida da história e das injustiças sociais, o que irá dificultar a construção de uma sociedade justa e equitativa no futuro. Uma geração com apagamento de representatividade e de identidade, com sérios prejuízos no seu desenvolvimento emocional e psicológico. Uma sociedade que terá normalizado a censura e a erosão dos valores democráticos.

Ao censurar livros, o conservadorismo, através dos seus representantes, destrói intelectualmente e, de certa forma, cria o seu próprio exército.

Dani Rabelo

Descubra como a censura de livros nos EUA atingiu níveis alarmantes, com mais de 6.800 títulos banidos em distritos escolares apenas no ciclo 2024-2025. Impulsionada por grupos conservadores, essa onda de censura tem como alvo principal obras com conteúdo LGBTQIAP+, discussões sobre racismo e escravidão, educação sexual e até clássicos literários como O Diário de Anne Frank e *1984*. Organizações como a Associação Americana de Bibliotecas e a PEN America alertam que as justificativas são questionáveis e violam a Primeira Emenda. O fenômeno da “censura preventiva” – onde escolas removem livros preventivamente para evitar processos – agrava o problema, criando uma geração com empobrecimento intelectual, distorção histórica e prejuízos ao desenvolvimento crítico. Este artigo examina as verdadeiras intenções por trás dos livros censurados e como esse movimento ameaça a liberdade de expressão e a formação de cidadãos conscientes.

Deixe um comentário