Todos os dias, inclusive nas terças-feiras, passeio com meu amigo cachorro às 5h da manhã, religiosamente. Com isso quero dizer: quase todos os dias por volta desse horário, pois compreendi com o tempo que nem os religiosos são rigorosamente pontuais.

Mas, voltando ao caso… como sempre, peço proteção ao senhor da comunicação, das vias e das encruzilhadas. Laroyê! vou descendo a minha rua com eles — minha amizade canina e meu protetor — fazendo algumas pausas obrigatórias em postes e pneus de carros pernoitados ao relento.

Nessas várias paradinhas para o amigo cão se aliviar, me deparo com ruas emudecidas e frias. Ruas sem pessoas. Ruas paradas, porém não vazias. Aos poucos, o cenário se transforma. O que antes era silêncio é ocupado pelas conversas de algumas trabalhadoras que se encontram à espera do transporte que as conduzirá ao seu labor. Sentadas, uma ao lado da outra, elas encontram abrigo naquele que é um monumento ao samba. A verdade é que essa obra singular fica em uma antiga rotatória veicular, orientando os motoristas e representando que, naquele local, acontece, semanalmente, às segundas-feiras, um afamado samba potiguar: o Samba do Vagabundo.

Diante deste cenário, semana após semana, dei-me a refletir ao entorno e, com isso, passei a acreditar menos nas coincidências e mais na espiritualidade ancestral afro-brasileira: rua, segunda-feira, encruzilhada, samba e a contradição entre trabalhadoras e o vagabundo.

Caso ainda não tenha percebido, realmente as terças são os dias em que mais me esforço para cumprir esse ritual, e tenho uma explicação para isso: a curiosidade que tenho de compreender a mensagem que me chega por meio da minha sensação olfatória — e usei essa expressão “bonita” porque ela resume a ambiguidade dicotômica entre o fedor e o cheiro.

Como te disse antes, a terça é o dia seguinte ao afamado Samba do Vagabundo, e a ressaca que a festa deixa não é apenas nos seus brincantes, mas também nas ruas. São odores da cena pós-samba, pós-catarse: lixos ensacados, rasgados e espalhados pela ação de algum cão faminto ou de famintos humanos; banheiros químicos bem usados; postes que se tornaram banheiros químicos; uma boca de lobo entupida; um tapete de estilhaços de vidro verde com tampinhas de garrafa, que na minha infância chamávamos de “ficha”; e o mormaço azedo de um chão que exala cerveja, limão e resto de drinks. Esse último cheiro, por sinal, é o que mais me remete a algo que busco encontrar na minha péssima memória.

O que me deixa de bobeira é que tudo isso, por mais caótico que pareça em plena terça-feira, remete-me a algo bom. Remete-me a algo que todos os anos torno a buscar no meu baú de emoções. Aquilo que meu corpo e a minha espiritualidade buscam, e que vem ao encontro justamente em uma mesma época.

Escrevo este texto em fevereiro de 2026, a apenas quatro dias precedentes à festa de Exú — para alguns, festa de Momo. Aquilo que busco? O Carnaval. O Car-na-val!

O tão buscado, e afetivo, bom mau cheiro do cenário caótico posterior ao Samba do Vagabundo, que acontece na encruzilhada onde as trabalhadoras esperam o transporte para trabalhar, é o cheiro do meu tão esperado e aguardado Carnaval. Laroyê!

Na próxima segunda-feira, novamente dia de Exú, será mais um dia de samba na encruzilhada; porém, este será o meu samba. Dia em que o meu bloco, o meu corpo e a minha alma desfilam e completam o ciclo que começa e se encerra no Carnaval. Quais marcas irei encontrar na terça-feira? Certamente, parte de mim em pequenas partículas de glitter, gotas de cerveja e o eco daquilo que foi uma bela noite de samba, tudo misturado aos cheiros que já conheço e ao cenário com que já me familiarizo.

Trago notícias.

Ronnan Cunha
Historiador, professor e fundador do Bloco Os Grávidos

 

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