Lembro bem do dia em que meu pai, um engenheiro, perguntou se eu tinha certeza de que queria ser jornalista. Dentre os vários motivos que o fizeram perguntar isso (e repetir a pergunta outras vezes, de formas e em momentos diferentes) estava o fato de que ele tinha na sua frente uma menina que verdadeiramente gostava das exatas. Para ele, um talento desperdiçado.

Para todas as vezes que ele me perguntou (falei que isso aconteceu em outros momentos, mesmo depois de formada e já trabalhando na área?), minha resposta sempre foi: sim. E assim, em 1996, paguei R$ 70,00 na minha inscrição do vestibular para a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e no segundo semestre de 1997 eu era integrante da turma de “feras” (a foto que ilustra o texto é de parte da minha turma) que colocava os pés no Departamento de Comunicação (antigo Decom).

Nos anos seguintes, as notícias não eram tão animadoras: começavam as movimentações judiciais questionando a obrigatoriedade do diploma de jornalista no Brasil. No início dos anos 2000, as primeiras decisões judiciais relevantes foram anunciadas (óbvio que elas não nos foram favoráveis). Então, em 17 de junho de 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) tomou a decisão definitiva que igualou o meu tão amado diploma ao guardanapo que você rabisca em uma mesa de bar enquanto pensa na vida (temos drama? Sim, mas permita-me o direito de ser dramática).

Se antes eu já escutava piadas, se antes o piso salarial já era uma vergonha, se antes a desvalorização era real e se antes a disputa já era desleal (com pessoas que se intitulam “jornalistas” por critérios que, sozinhos, podem ser interessantes, mas, no conjunto da obra que é um comunicador social, é muito, muito pouco), com essa decisão do STF a coisa piorou.

Importante dizer que, ainda assim, as universidades mantiveram os cursos (muitos com uma qualidade incrível), algumas empresas sustentaram a exigência do diploma, porém a conta nunca fechou. Se não fechava antes, quando o diploma era válido, mas, por debaixo dos panos, as contratações de pessoas de qualquer outra formação (ou formação alguma) para exercerem atividades exclusivas de comunicadores sociais já aconteciam, imagina como a coisa ficou.

Sendo oficial, agora a disputa por uma vaga não era de comunicador social para comunicador social. A disputa é entre comunicador social, cachorro, papagaio e periquito.

E, sendo uma área que parece ter o seu encanto todo especial, os golpes não pararam por aqui.

Sabe a nova? O Conselho Federal de Profissionais de Relações Públicas (CONFERP) resolveu que jornalistas precisam se registrar no sistema de relações públicas para exercer atividades de assessoria de imprensa e comunicação institucional (oi???).

E sabe qual é a outra nova? A sanção da Lei nº 15.325/2026 (Lula, me ajuda a te ajudar) que regulamenta a chamada profissão de “multimídia”. Esse seria um profissional que cria, produz, edita e gere conteúdos (ué, e isso não é o que um comunicador social faz?).

Sim, é de cair o c* da bunda.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), sindicatos e entidades estão se colocando contra essas duas pérolas, afinal, como o site Barão de Itararé colocou: é preciso trabalhar (e lutar — isso é um grifo meu) na defesa de trabalhadoras e trabalhadores da comunicação, com a valorização das profissões regulamentadas e com a promoção de um ambiente de trabalho digno, com direitos sociais, garantias legais e condições que fortaleçam, e não esvaziem, o papel social do jornalismo, do radialismo e de outras atividades essenciais à democracia.

E se meu pai estivesse vivo, certamente ele me perguntaria mais uma vez: “Filha, tem certeza de que quer ser jornalista?”

Dani Rabelo

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