Este não é um texto que segue uma linha perfeitamente lógica ou racional. Talvez ele seja mais um fluxo de pensamentos e angústias que surgem diante de tantos e incontáveis casos de violência contra a mulher, de feminicídios e das múltiplas faces do machismo que atravessam o nosso cotidiano.

E quando pensamos nos casos que vêm à tona, precisamos também lembrar de todos os que nunca são revelados. Das violências silenciosas, dos abusos diários que muitas mulheres sofrem dentro de um ônibus, no transporte público, no ambiente de trabalho, dentro de casa. Às vezes por um familiar, por um amigo, pelo parceiro de uma amiga, por um ex-namorado, por um companheiro.

Somos atacadas o tempo todo, em diferentes formas, em diferentes espaços. Em todos os lugares. Porque, no fundo, não há um único lugar onde possamos dizer com tranquilidade que estamos completamente seguras.

Pode soar radical dizer isso, mas muitas vezes a sensação de segurança plena só parece possível em um ambiente totalmente feminino. Em um espaço onde não há presença masculina. Porque a presença masculina, em tantos contextos, automaticamente aciona em nós um alerta, uma sensação de possível perigo.

E o quanto isso é triste de sentir. O quanto seria bom se fosse diferente. O quanto seria bom se pudéssemos nos sentir protegidas, respeitadas e cuidadas em qualquer ambiente onde houvesse homens.

Mas essa ainda não é a realidade.

E então observamos certos movimentos e discursos que surgem por aí. Espaços que dizem acolher homens, mas que muitas vezes funcionam como lugares de absolvição. Lugares onde se passa um verniz sobre comportamentos violentos ou abusivos, onde se coloca a mão na cabeça e se diz: está tudo bem, você também é vítima.

É como aquela amizade que nunca diz a verdade. Aquela amiga que vê seus erros, vê você machucar outras pessoas, mas prefere não confrontar, prefere acolher sem responsabilizar. Isso pode ser confortável, porque não exige mudança.

Muitos desses espaços masculinos funcionam assim. Um homem trai, maltrata, age com violência ou desprezo, e encontra nesses ambientes uma narrativa que o acolhe sem questionamento. Como se bastasse subir uma montanha simbólica, participar de um ritual ou de uma experiência transformadora para que tudo fosse resolvido.

Mas, no fundo, muitas vezes não passa de verniz.

Um verniz sobre o machismo.

Algo parecido acontece também em certos ambientes virtuais, onde homens se sentem à vontade para dizer exatamente o que pensam sobre as mulheres, sem filtros, sem medo de julgamento social. Ali aparecem as ideias que muitas vezes são apenas disfarçadas no convívio cotidiano.

Enquanto isso, as mulheres ainda lutam para serem ouvidas.

Somos muitas, somos maioria em número. Mas ainda somos minoria em força política, física, social e estrutural. Durante muito tempo, nossa voz sequer pôde existir.

E talvez ainda não estejamos exatamente falando.

O que começou a acontecer agora, muito recentemente na história, é que finalmente começamos a ter o direito de gritar.

Não é apenas voz.

Ainda são gritos.

Andréa Carla Bezerra
Relações Públicas

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