Quando voltei às leituras de livros de não-ficção, preciso confessar que a “porta de entrada” foram os livros de romance de época e, além de Jane Austen, Louisa May Alcott e Julia Quinn, eu não conhecia outras escritoras desse gênero. E, graças às criadoras de conteúdo que eu acompanhava (e continuo acompanhando), descobri um grupo de escritoras que “saem da curva”.

Mary Balogh

Essa expressão é uma forma de dizer que, mesmo escrevendo histórias de pessoas que vão terminar juntas, o livro não se resume a isso. O contexto social, histórico, o psicológico dos personagens… tudo isso é tão importante quanto os protagonistas. E, dentro das autoras que escrevem obras assim, Mary Balogh é uma delas.

Mary Balogh (82 anos) é uma escritora nascida no País de Gales que escolheu o Canadá para viver. Se você fizer uma breve busca sobre ela, vai encontrar que o diferencial na narrativa é “fugir do conto de fadas”. Ela foca em personagens complexos com traumas reais (guerra, abuso) e heróis que nem sempre são o “sarado convencional”. Depois de ler UMA PROPOSTA E NADA MAIS, o primeiro da série Clube dos Sobreviventes.

Lançado em 2004 nos Estados Unidos, o livro chegou ao Brasil em 2018 pela Editora Arqueiro. E, caso você ainda não saiba, a obra traz a história de Lorde Trentham (Hugo Emes), um integrante do grupo de sobreviventes da guerra que trouxeram consigo marcas e traumas; porém, juntos, lutam pela aceitação e superação deles. Falando sobre a protagonista, temos Gwendoline (Lady Muir), uma jovem viúva que viveu um casamento marcado por perdas e dores.

Como estamos no primeiro volume da série, a autora, nas primeiras páginas, nos apresenta o Clube dos Sobreviventes, seus integrantes e as marcas (físicas e emocionais) que a guerra deixou em cada um deles. E aqui já preciso dizer que isso não só me fez querer seguir na leitura, como também ler os livros que contam as histórias dos outros integrantes do Clube.

É fato que os meus trechos preferidos do livro são aqueles em que temos a presença dos integrantes do Clube e quando são apresentados mais detalhes sobre o passado dos protagonistas. Sendo assim, já é possível desconfiar que a história do casal em si não foi algo que me cativou.

Também é muito importante ressaltar que, neste primeiro volume, os traumas tratados são os psicológicos e, junto com os fatos históricos, isso foi algo que eu gostei muito.

Em Uma Proposta e Nada Mais, Mary Balogh dialoga conosco sobre questões psicológicas e a perspectiva de quem vive e de quem convive com elas. É óbvio que é necessário levarmos em conta que a história acontece após as Guerras Napoleônicas (1815-1817), e os conhecimentos sobre os transtornos mentais e seu tratamento eram absurdos (pessoas trancadas em celas, acorrentadas…). Se falarmos sobre os traumas pós-guerra, que eram a realidade de muitos daqueles que estiveram nas batalhas, não existiam estudos ou diagnósticos formais. Sendo assim, a autora coloca o destino de dois homens que tiveram acesso a formas diferentes de cuidados, e aqui não coloco juízo de valor. Também temos questões de classes sociais, mas o psicológico ainda possui um destaque maior.

Sobre a escrita de Mary Balogh, ela é mais descritiva e profunda em um ponto que me causou uma dualidade de sentimentos. Enquanto amei isso quando ela tratava dos fatos históricos e psicológicos, quando o foco eram os protagonistas no presente, me causou um certo cansaço. Sabe quando uma pessoa está falando e você pensa: “Sim, continue, continue…”? Me senti dessa forma, e foram exatamente nesses instantes que isso impediu a minha imersão na história.

Talvez eu esteja sendo injusta com a autora, afinal, durante toda a minha leitura tentei ao máximo não me lembrar da série OS IRMÃOS TREWLOVE, de Lorraine Heath. E isso aconteceu pelo fato de as duas escritoras (que são contemporâneas) terem a mesma forma de criar os seus romances: fazendo com que os seus personagens não vivam em ilhas, mas que estejam inseridos em um mundo e em uma sociedade, e tudo isso reverbera em cada um deles. A principal diferença que percebi entre as duas é que Lorraine consegue tornar todos os cenários da história interessantes.

Mas, finalizando esta resenha, considero a minha primeira experiência com Mary Balogh muito boa. Não foi perfeita, mas foi boa o suficiente para querer seguir lendo e saber o destino dos outros integrantes do Clube dos Sobreviventes.

FICHA DE LEITURA
UMA PROPOSTA E NADA MAIS (CLUBE DOS SOBREVIVENTES – LIVRO 1)
AUTORA: MARY BALOGH
EDITORA: ARQUEIRO
ANO: 2018
PÁGINAS: 356
IDADE DE LEITURA: +16

Dani Rabelo

Resumo: Nesta resenha do livro Uma Proposta e Nada Mais, primeiro volume da série Clube dos Sobreviventes de Mary Balogh, a autora compartilha sua experiência de leitura para fãs de romance de época que buscam narrativas que fogem do conto de fadas tradicional. Conhecida por criar personagens complexos com traumas reais (como os decorrentes das Guerras Napoleônicas), Mary Balogh oferece um romance histórico profundo, com foco em questões psicológicas, contexto social e superação. A resenha compara ainda o estilo da autora com o de Lorraine Heath (série Os Irmãos Trewlove), destacando semelhanças e diferenças na construção de mundos ficcionais. Ideal para leitores que apreciam romances descritivos, com protagonistas imperfeitos e abordagem sensível sobre saúde mental no período histórico.

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