E hoje é dia de conversarmos sobre TUDO É RIO, livro de Carla Madeira publicado pela editora Record.

Se você já me conhece através das resenhas que escrevo aqui para o blog, ou está me conhecendo agora (ou já tenha assistido algum vídeo que gravei), saiba que esta resenha será, de certa forma, diferente. Só não me pergunte como, pois, até este momento eu ainda não sei.

O que sei é que terminei de ler TUDO É RIO já há algum tempo (ainda foi em 2026), mas ainda não me sentia preparada para escrever um texto com os meus apontamentos. E para esta pergunta eu tenho uma resposta: encerrei o livro com uma percepção exata da minha experiência, porém, como os nossos celulares são verdadeiros fofoqueiros, em minutos várias resenhas apareceram nas minhas redes sociais. E, em algumas delas, pareceu que tínhamos lido livros diferentes.

Com isso em mente, achei que era melhor esperar um tempo para a sedimentação da leitura. A questão é que todos os meus apontamentos continuam os mesmos e, no final das contas, será que essa não era a proposta de Carla Madeira: fazer com que TUDO É RIO fosse um livro diferente para cada leitor?

Neste livro de 2021, com 210 páginas, temos a história de Lucy, Dalva e Venâncio. Caso esteja esperando um resumo das coisas que acontecem com eles, eu não irei dizer, mas sei o que aconteceu comigo ao mergulhar na mente de cada um. E esse é um ponto que quero destacar.

Carla Madeira se dedica a nos colocar, até certo ponto, dentro da mente dos personagens (até dos secundários), porém, sobre a ambientação, nos é oferecido apenas o suficiente para que possamos nos situar geograficamente. Não existem grandes detalhes sobre os lugares e sobre as coisas, apenas o necessário e, ainda assim, não me senti perdida.

Já com relação ao psicológico, se fizéssemos uma analogia com uma casa, é como se ela nos apresentasse os cômodos nos mínimos detalhes. Conhecemos a sala, o tecido que cobre o sofá, a pintura das xícaras que enfeitam a cristaleira, o detalhe da dobra das toalhas no banheiro, assim como nos são apontadas as lasquinhas nos móveis, a falta de tinta no canto do rodapé e a fissura no teto.

Porém, apesar de toda essa minuciosidade, existe um cômodo que não nos é mostrado. Seria esse o “quartinho da bagunça”? Afinal, toda casa tem um. E como não conhecemos esse lugar, podemos apenas imaginar. Ele pode ser o oposto daquilo que é o restante da casa, ou pode ser a mesma coisa, porém de um jeito diferente, mas ainda refletindo ali quem é o seu morador.

Sendo assim, ao conhecer a “casa” de Lucy, Dalva e Venâncio, podemos detestar a decoração escolhida por cada um, ou podemos simplesmente achar tudo perfeito. Podemos não entender as soluções dadas para a ocupação de cada espaço ou entender que aquelas eram escolhas óbvias. Podemos nunca mais querer pôr os pés naquele ambiente, ou nos tornarmos frequentadores cativos. No entanto, em cada casa existe um “quartinho da bagunça” e, mesmo que a gente tente, e tente muito, nunca saberemos como é ou o que existe lá dentro.

E, nas minhas deduções, o “quartinho da bagunça” de Lucy, Dalva e Venâncio fala mais sobre quem eles são do que todos os cômodos da casa que temos acesso. Mas, mesmo nos tornamos tão familiares àqueles espaços, é leviano dizer exatamente como ele é. Deduções não são certezas, são, apenas, deduções.

Não acho que existe romantização, subserviência, arrependimento ou perdão completo. As lasquinhas nos móveis estão lá. A falta de tinta no rodapé está lá. As fissuras no teto permanecem lá. Nada se mostra perfeito, apenas não queremos ver, ou esquecemos de ver.

Para mim existe uma história que traz o real, e o real pode ser jocoso, rude, encantador, mórbido, feliz, revoltante, incompreensível, acalentador, revigorante, cruel e, apenas, real.

TUDO É RIO não traz respostas, ou traz. Talvez traga respostas, mas essas criadas por você.

FICHA DE LEITURA
TUDO É RIO
AUTORA: CARLA MADEIRA
EDITORA: RECORD
ANO: 2021
PÁGINAS: 210
IDADE DE LEITURA: +18

Dani Rabelo
Resumo: Nesta resenha do livro TUDO É RIO, de Carla Madeira, publicada pela editora Record, a autora do blog compartilha uma reflexão pessoal e diferenciada sobre a obra. Diferente das resenhas convencionais, o texto explora a experiência subjetiva da leitura, destacando como a narrativa foca na psicologia dos personagens em vez de oferecer grandes descrições de ambientação. Usando a metáfora da “casa” e do “quartinho da bagunça”, a resenhista discute como cada leitor pode interpretar a história de Lucy, Dalva e Venâncio de maneira única. O texto aborda temas como a complexidade emocional, a ausência de respostas definitivas e a multiplicidade de sentidos que a obra permite. A resenha é recomendada para leitores que buscam análises literárias profundas, sem spoilers, e que valorizam narrativas que provocam incômodo, encantamento e reflexão sobre o real.

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