Conhecida por suas belas livrarias, em 2026, a Argentina, que vem passando por uma grave crise econômica (afinal, temos lá um projeto de Bolsonaro – fã, e que executa um excelente papel de subserviência aos Estados Unidos da América), começou o ano com uma queda de 30% na venda de livros. Diante de um governo ultraliberal e com índices econômicos que tendem a piorar, uma triste notícia foi dada durante a tradicional Feira do Livro da Argentina, realizada entre os dias 23 de abril e 11 de maio: o fechamento da Ediciones de la Flor, editora responsável por publicar a personagem Mafalda (criação do cartunista Quino) por mais de cinco décadas.

O anúncio foi dado de forma dramática: sem um comunicado oficial para a imprensa, sem evento de despedida. Apenas um cartaz exposto no estande da editora informando que aquela seria a sua última participação no evento e que 2026 será o último ano de funcionamento da editora. Como um tango, uma das mais tradicionais e importantes editoras do país fecha as suas portas melancolicamente.
Mafalda: a inquietude de uma menininha
Mas, antes de explicar melhor os motivos que levaram ao fechamento da Ediciones de la Flor, eu preciso ter certeza de que você sabe quem é Mafalda. Não sabe? Então, talvez este seja o momento de você rever a sua latinidade.
Mafalda, uma menininha de cabelos pretos (que acordava mega assanhada), foi criada por Quino em 1964. Através dessa garotinha, o cartunista tratou de assuntos complexos e sérios. Com um pensamento crítico aguçado, Mafalda, em sua inquietude, não aceita o mundo como ele é. Ela questiona a hipocrisia dos adultos e a desigualdade social.

Tornou-se uma das personagens mais influentes da literatura de massa e dos quadrinhos, transitando por toda a América Latina. Sua última tirinha foi publicada no dia 25 de junho de 1973; no entanto, Mafalda ainda apareceu em alguns momentos especiais.
Apesar de, em 2026, completar 53 anos do seu último quadrinho, Mafalda consegue atravessar gerações. Se seus questionamentos e reflexões continuam atuais, isso é algo que deve nos preocupar.
Crise econômica e transformações no mercado editorial
A Ediciones de la Flor, que teve um importante papel não só na propagação de Mafalda, mas também na história ao publicar outros importantes quadrinistas argentinos (Miguel Rep e Roberto Fontanarrosa), foi responsável por levar nomes como Umberto Eco, Vinícius de Moraes e Clarice Lispector para o público argentino.
Apesar disso tudo, dessa importante história no mercado editorial da Argentina, a editora não conseguiu acompanhar as transformações do mercado e, como “bônus”, a crise econômica atual. Segundo Ana María “Kuki” Miller, diretora da editora, a velocidade das mudanças no setor não foi acompanhada pela empresa no ritmo que deveria.
A soma de uma estrutura que ainda funcionava no modelo tradicional com uma grande quantidade de funcionários (e isso podemos traduzir por: a não modernização no processo de produção e a não capacitação dos trabalhadores) resultou em uma situação insustentável. A solução? Para a diretora da Ediciones de la Flor, a reconstrução a partir do zero.

O “desligar dos aparelhos” teria sido a decisão, em 2025, dos herdeiros de Quino de transferir os direitos de publicação de Mafalda para a editora Sudamericana, selo que faz parte do grupo Penguin Random House. As publicações na nova editora tiveram início em agosto de 2025.
Os sobrinhos de Quino, que agora possuem o poder de decisão sobre a sua obra, explicaram que a saída da Ediciones de la Flor foi motivada pelas limitações de distribuição da editora e pela necessidade deles de ampliar o alcance das publicações do cartunista.
Apesar de algumas tentativas para reverter essa decisão, a Ediciones de la Flor não obteve sucesso, e uma publicação nas redes sociais da editora mostrou o lamento pela escolha dos herdeiros de Quino.
Que a Ediciones de la Flor não seja apenas lembrada como mais uma vítima da crise argentina ou das transformações do mercado editorial. Seu fechamento escancara algo mais profundo: a fragilidade das instituições culturais em tempos de ultraliberalismo, a dificuldade de conciliar tradição e modernização e, acima de tudo, o risco de normalizarmos perdas que deveriam doer.

Mafalda nunca aceitou o mundo como ele é. Talvez a melhor forma de homenagear a editora que a abrigou por cinco décadas seja justamente recusar a naturalização desse fim. Não como um gesto ingênuo, mas como um ato de inquietude, o mesmo que movia a menina de cabelos assanhados criada por Quino.
Dani Rabelo
Fonte: Jornal Nota

Resumo: Em 2026, a Argentina vive uma grave crise econômica que já provocou queda de 30% nas vendas de livros. Durante a Feira do Livro do país, foi anunciado o fechamento da Ediciones de la Flor, editora que publicou Mafalda por mais de cinco décadas. A personagem criada por Quino em 1964 continua atual em seus questionamentos sobre desigualdade e hipocrisia. O fechamento da editora se deve à crise, à falta de modernização e à decisão dos herdeiros de Quino de transferir os direitos de Mafalda para o grupo Penguin Random House em agosto de 2025. O texto conclui que perdas culturais como essa não devem ser naturalizadas, mas sim enfrentadas com a mesma inquietude de Mafalda.
