Estamos em pleno debate sobre o FIM DA ESCALA 6X1, e ainda me surpreende (talvez não devesse) a ignorância (proposital ou não) sobre a transversalidade desse e de tantos outros temas que tratam da nossa sociedade. Pesquisas e mais pesquisas são publicadas constatando o quanto nós, brasileiros, lemos pouco.

Talvez você esteja se perguntando se não estou mal informada. Afinal, em março de 2026, foi divulgada a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, que revelou que 18% da população com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos 12 meses, um crescimento de 2 pontos percentuais em relação a 2024, representando cerca de 3 milhões de novos consumidores no período. O estudo foi uma iniciativa da Câmara Brasileira do Livro, com realização da Nielsen BookData.

Sim, essa constatação é extremamente importante. Porém, o país ainda ocupa uma posição intermediária-baixa no cenário global, situando-se na 34ª posição no ranking mundial de leitura, com uma média de 5,6 livros lidos por pessoa ao ano. O ponto de referência para sabermos o ideal de livros que uma pessoa deveria ler tem como base a média das nações que fazem parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Isso nos dá uma meta de cerca de um livro por mês.

Mas, depois de toda essa contextualização, você percebe que, quando pesquisas como essa são divulgadas (quando a pauta “brasileiros leem pouco” ou “brasileiros precisam ler mais” aparece), a comunidade literária escreve e grava diversos conteúdos com análises e opiniões? Vamos da “necessidade de políticas públicas”, passamos pelo “alto preço dos livros” e chegamos até o “só não lê quem não quer”. Mas nada sobre o fato de que uma população que trabalha na escala 6×1 vai ter tempo para ler como? Entende agora quando falo da transversalidade do tema?

A luta pelo FIM DA ESCALA 6X1 também deveria ser ampla e abertamente abraçada pela comunidade literária; porém, não é.

Nas minhas redes sociais, acompanho dois tipos de grupos: um em que esse assunto está reverberando desde os primeiros sinais da possibilidade dessa mudança na vida das trabalhadoras e dos trabalhadores do Brasil; e outro no qual parece que nada disso está acontecendo.

Eu sou do grupo de pessoas que acha cada vez mais importante se posicionar diante de temas que colocam em risco a democracia, a saúde da população (acho que você consegue entender do que estou falando), a defesa de direitos, a conquista de novos e a justiça social. Entender o seu lugar no mundo, a sua responsabilidade e a possibilidade que você tem (mesmo que mínima) de contribuir com mudanças importantes é ter ciência do seu papel como cidadã e cidadão.

Para mim, ser um “influenciador” ou “influenciadora” (e tenho tantas questões com essa nomenclatura) vai além de fazer vídeos recebendo ou comprando livros, vai além de fazer resenhas, vai além de responder a tags, vai além de, inclusive, escrever um texto como este. Significa, sim, que você pode fazer tudo isso, mas, para além disso, precisa se comprometer a melhorar a vida daquelas pessoas que você quer “influenciar”. Caso contrário, talvez tudo o que você faz seja apenas para si mesma. Mais sobre o “eu” e menos sobre o “nós”.

Por isso, ao final deste texto, deixo um pedido: que a comunidade literária, especialmente aqueles e aquelas que acreditam em uma sociedade justa e igualitária, escancare os olhos para a transversalidade da luta. O fim da escala 6×1 também é uma pauta literária. Tempo para ler é tempo para viver. E lutar por ele é, sim, um ato de leitura de mundo. Fiquemos do lado certo da história.

Dani Rabelo

Resumo: O Brasil ocupa a 34ª posição no ranking mundial de leitura, com média de 5,6 livros por ano. A comunidade literária costuma apontar causas como preço dos livros e falta de políticas públicas, mas silencia sobre a principal: a escala 6×1. Com apenas um dia de descanso por semana (que raramente é de fato descanso), a classe trabalhadora não tem tempo nem energia para ler. A luta pelo fim da escala 6×1 também deveria ser uma pauta literária. Posicionar-se sobre esse tema é um ato de leitura de mundo e de compromisso com o coletivo.

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