Definitivamente eu não sou o tipo de pessoa que faz lista de metas para que sejam cumpridas no ano que está por vir. Também não sou das pessoas que se compromete com algum tipo de divindade (pelo menos não no final de ano para começo do outro) para executar algumas coisas. Porém, me comprometer com algo é totalmente diferente de metas e promessas. Na minha mente isso tem total lógica. Chegamos então ao ponto de que em dezembro de 2025 eu me COMPROMETI que iria ler, paralelamente, um livro de ficção e um de não-ficção.
É inegável que o universo da ficção me pega em um lugar demasiadamente especial: desconectar-me da realidade e conectar-me com outra. Mesmo eu gostando de livros (de romance romântico), sempre dou preferência para aqueles que possuem algo além (uma crítica social, conteúdo histórico e assim vai). O problema é que eu também sentia necessidade de ler autores e obras de não-ficção. Eu comprei vários livros. Eu me animava com o conteúdo. Porém, a coisa mesmo de ler, essa não acontecia, ou, quando acontecia, era miseravelmente inferior se comparada com os romances lidos. Quase um 7 a 1.
Bem, depois de me COMPROMETER em dezembro de 2025, foi em fevereiro/março de 2026 que o pontapé inicial foi dado. E, com muito orgulho, digo que o primeiro livro lido dessa nova era foi O FEMINISMO É PARA TODO MUNDO, de bell hooks. Isso mesmo, ela assina o nome com todas as letras minúsculas. Uma forma que encontrou de “deslocar o foco da figura autoral para suas ideias” (essa explicação está na orelha do livro).
E é isso.
Li pela primeira vez bell hooks, e, se eu fosse resumir grosseira e assertivamente: foram tapas de realidade muitas vezes, mais do que eu conseguiria contar.
Mas, antes de falar sobre o livro, acho importante (para quem ainda não sabe) dizer quem é bell hooks: uma aclamada intelectual negra, teórica feminista, crítica cultural, artista e escritora estadunidense. Em seus mais de 30 livros, escreveu sobre gênero, raça, classe, espiritualidade e ensino. Dito (escrito) isto, agora chegou o momento de discorrer sobre uma leitura de 175 páginas que mais pareceram 550, tamanha a densidade e a importância das informações contidas nele.
bell hooks, já no prefácio, nos coloca a frustração de que a teoria feminista tenha se tornado algo “muito acadêmico”. Indo de encontro a isso, ela escreve O FEMINISMO É PARA TODO MUNDO, sendo esse “um livro fácil de ler” e que explica o pensamento feminista e incentiva as pessoas a adotarem as políticas feministas. E aqui posso confirmar que ela obteve sucesso com isso.
Entre definições sobre o feminismo, ela apresenta uma que é “simples” e que deve ser lida “repetidas vezes”: “Feminismo é um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”. E, caso você não saiba, sexismo é o “preconceito, discriminação ou estereotipação baseada no gênero de uma pessoa, geralmente sustentado pela crença de que um sexo é superior ao outro”. Se formos usar um termo para nomear o sexismo institucionalizado, esse pode ser o “patriarcado”.
A partir desse ponto, a autora vai reafirmando a importância do feminismo, a necessidade da sua popularização, os movimentos errados (acidentais e propositais), questões raciais, de classes, a dubiedade dos homens que entendem a problemática sobre a forma como as mulheres são tratadas, no entanto, temem abrir mão dos benefícios que usufruem. Eu não disse que a coisa era substanciosa?
Segundo a autora, mudanças feministas já atingiram todas as pessoas de forma positiva, porém, o que ouvimos do feminismo (e a mídia possui um papel de destaque nisso) é negativo: violentas, feias, que desejam a extinção dos homens…
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E se tocarmos no assunto “pautas identitárias”, concordo totalmente com a autora quando ela diz que “uma revolução feminina sozinha não criará esse mundo (um mundo onde todos nós podemos ser quem somos, um mundo de paz e possibilidades); precisamos acabar com o racismo, o elitismo, o imperialismo”.
O meu real desejo, nesta resenha, era destrinchar esse livro, mas, além de o texto ficar demasiadamente longo, acho que mais vale você lê-lo na sua integralidade. Qualquer resumo que for feito de O FEMINISMO É PARA TODO MUNDO será falho. Mas aqui vão alguns outros destaques que me fizeram pensar e pensar:
- Que as mulheres negras jamais irão alcançar a igualdade dentro do patriarcado capitalista de supremacia branca existente;
- Que a política foi removida do feminismo, sendo colocado que não importa se uma mulher é conservadora ou liberal, ela pode encaixar o estilo feminista em seu estilo de vida (uma falácia);
- A conscientização feminista para homens é de suma importância;
- Mulheres brancas privilegiadas precisam abrir mão do sexismo internalizado para que a divisão entre as mulheres diminua;
- A luta de classes no feminismo;
- O trabalho não irá libertar as mulheres da dominação masculina. Um salário baixo não vai libertar uma mulher da classe trabalhadora da dominação masculina;
- Quando as mulheres dedicam todo o tempo para atender às necessidades dos outros, o lar vira trabalho. Se é trabalho, não é local de descanso;
- As mulheres brancas reconhecerem que a branquitude é uma categoria privilegiada;
- O movimento feminista precisa ser fundamentalmente antirracista;
- Ser membro de um grupo explorado não torna ninguém mais inclinado a resistir;
- Não há amor onde há dominação;
- A proliferação de que pode haver vários “feminismos” serve a interesses políticos, conservadores e liberais.
E, chegando ao final deste texto (contra a minha vontade), preciso de novo, e mais uma vez, afirmar que essa é uma leitura necessária para todo mundo. O FEMINISMO É PARA TODO MUNDO é daqueles livros que você precisa ter na sua estante, ao lado da cabeceira, para sempre retornar e consultar. Um livro para lembrar a importância do feminismo e que ele é benéfico para todos nós.
FICHA DE LEITURA
O Feminismo é Para Todo Mundo
Autora: bell hooks
Editora: Rosa dos Tempos
Ano: 2018
Páginas: 175
Idade de Leitura: +14



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