No dia 9 de abril, tivemos a notícia de que o livro O POVO BRASILEIRO: A FORMAÇÃO E O SENTIDO DO BRASIL, lançado em 1995 e escrito por Darcy Ribeiro, foi traduzido para o mandarim e publicado na China. O lançamento do livro do sociólogo faz parte das comemorações do Ano Cultural China-Brasil de 2026, estabelecido pelos presidentes Lula e Xi Jinping.
A edição de O POVO BRASILEIRO, que é uma das obras mais importantes e clássicas da antropologia e sociologia brasileiras, foi o resultado de um trabalho em conjunto da Blossom Press (uma influente editora estatal da China fundada em 1982) e do Centro Cultural de Publicações China-América Latina e Caribe, vinculado ao Grupo de Comunicações Internacionais da China, tudo em parceria com a Fundação Darcy Ribeiro.
Caso você não tenha lido ou nunca tenha escutado falar sobre esse livro, saiba que O POVO BRASILEIRO teve origem durante o tempo em que Darcy Ribeiro esteve no exílio, após o golpe militar de 1964. A sua primeira versão foi escrita em 1965, no Uruguai, e a segunda, em 1972, no Peru. A versão final da obra foi escrita décadas depois.
O escritor, que estava internado, fugiu do hospital para a sua casa na cidade de Maricá, no Rio de Janeiro, para terminar o livro. Darcy Ribeiro faleceu em Brasília, em 1997, aos 74 anos. O POVO BRASILEIRO: A FORMAÇÃO E O SENTIDO DO BRASIL ganhou as livrarias através da editora Companhia das Letras, em 1995.
Sobre Darcy Ribeiro, ele foi um dos maiores e mais influentes pensadores do Brasil no século XX. Participou da construção de Brasília, mas não da forma que você deve estar pensando (afinal, ele não era engenheiro, longe disso). O antropólogo, sociólogo, escritor e educador brasileiro foi o idealizador e primeiro reitor da Universidade de Brasília (UnB), inaugurada em 1962. Para ele, a universidade deveria ser um motor de modernização e pesquisa tecnológica para a nova capital brasileira. Outra contribuição, agora em parceria com Oscar Niemeyer, foi a criação de marcos importantes da cidade, como o Memorial dos Povos Indígenas.
Enquanto Oscar Niemeyer e Lúcio Costa cuidaram do “corpo” de Brasília (a parte física e estética), Darcy Ribeiro dedicou-se a dar à cidade uma “alma” intelectual e educacional.
Darcy Ribeiro também foi um dos pilares da política de proteção aos povos indígenas no Brasil. Entre as suas contribuições, tivemos a sua atuação no Serviço de Proteção aos Índios, órgão que precedeu a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e que existiu entre 1947 e 1956. Foi discípulo do Marechal Rondon e conviveu com diversos povos indígenas. Também foi um dos grandes articuladores políticos para a fundação do Parque Indígena do Xingu, em 1961, que hoje é chamado de Território Indígena do Xingu. Essa área fica localizada na região nordeste do estado do Mato Grosso. Lá vivem cerca de 16 etnias diferentes, em uma área de transição entre o Cerrado e a Amazônia.
Também podemos dar créditos a ele pela fundação do Museu do Índio, em 1953, no Rio de Janeiro, que agora se chama Museu Nacional dos Povos Indígenas. Para Darcy, era insuficiente proteger os povos no campo; era necessário mudar a mentalidade das pessoas nas cidades.
O Museu nasceu com o objetivo de provar que os indígenas não eram “selvagens” ou “atrasados”, mas criadores de uma cultura rica, complexa e bela. O espaço também foi o primeiro no Brasil criado para o estudo das culturas, com um acervo que mostra a lógica por trás dos costumes, da arte e das línguas indígenas. Serve como apoio público para a demarcação de terras e proteção de aldeias, como também preserva objetos, adornos e ferramentas de povos que corriam o risco de desaparecer devido ao avanço dos colonizadores.
No ano de 2024, o presidente Lula declarou Darcy Ribeiro um “Herói Nacional”.
Ainda sobre a obra O POVO BRASILEIRO: A FORMAÇÃO E O SENTIDO DO BRASIL, o presidente da Fundação Darcy Ribeiro, José Alves da Cunha, disse que essa não é uma obra fechada. Ela seria um convite permanente para a reflexão sobre o que o Brasil ainda pode se tornar, afinal de contas, seus questionamentos continuam atuais: que país queremos construir? Por quais causas a juventude brasileira deveria lutar?
Nas páginas do livro, o autor escancara a violência fundadora da sociedade brasileira, destacando que o nosso povo é o resultado de um processo marcado pelo genocídio indígena e pelo etnocídio das comunidades negras.
E se a gente puxar pela memória, uma pesquisa divulgada em maio de 2025 revelou que o Brasil é o país mais miscigenado do mundo. A pesquisa faz parte do projeto DNA do Brasil, do Ministério da Saúde, e cientistas da USP provaram que, geneticamente, o Brasil tem 60% de ancestralidade europeia, 27% de africana e 13% de indígena. E isso foi considerada uma herança dos povos ancestrais maior do que se imaginava.
Na época em que essa pesquisa foi lançada, algumas pessoas comemoraram sem refletir sobre o que isso significava. O fato de a nossa ancestralidade ser 27% africana e 13% indígena é o resultado de uma colonização extremamente violenta. Caso você ainda não tenha entendido, muitos de somos descendentes de mulheres indígenas e escravizadas que foram violentadas.
Para Darcy Ribeiro, reconhecer a nossa real história não enfraquece a ideia de uma identidade nacional comum, mas a torna mais honesta. A luta desses povos não fragmenta o nosso tecido social, ela integra a história da formação do Brasil.
Outro ponto interessante sobre o lançamento do livro na China é que a tradutora do português para o mandarim, a professora da Universidade de Comunicação da China e especialista em estudos brasileiros, Yan Qiaorong, fez um comparativo entre o clássico brasileiro e um clássico da literatura chinesa. Na opinião dela, entender o Brasil sem ler Darcy Ribeiro é como entender a China sem ler a obra DA TERRA: OS FUNDAMENTOS DA SOCIEDADE CHINESA, de Fei Xiaotong.
Para transmitir com precisão o significado de O POVO BRASILEIRO, ela estudou especificamente o manuscrito original, impresso em 1995, comparando meticulosamente os conceitos centrais com os de Gisele Jacon de Araújo Moreira, antropóloga e atual vice-diretora da Fundação Darcy Ribeiro, que auxiliou o escritor na compilação do manuscrito.
Ela ainda enfatizou que as máquinas podem traduzir palavras, mas não pensamentos (e aqui estamos falando do uso da Inteligência Artificial como tradutor). Elas podem converter código, mas não podem construir confiança, porque a confiança só pode ser construída por pessoas (e eu achei essa forma dela explicar a subjetividade no trabalho de um tradutor algo incrível).
LEIA TAMBÉM: O Feminismo é Para Todo Mundo: a Revolução Precisa ser Antirracista e Anticapitalista
Nas campanhas de divulgação de O POVO BRASILEIRO: A FORMAÇÃO E O SENTIDO DO BRASIL na mídia chinesa, destaca-se que o livro levou 30 anos para ser escrito e que explica sistematicamente como a nação brasileira foi formada através do encontro, do conflito e da integração de diversas culturas. A obra seria um clássico essencial para a compreensão da história, da realidade e do caráter nacional do Brasil.
Eu fico realmente muito feliz quando os nossos escritores e seus livros cruzam as nossas fronteiras. Eu poderia também citar Jorge Amado com CAPITÃES DA AREIA e GABRIELA (que é um dos autores mais traduzidos do Brasil e essas obras destacam-se na China e na Europa), Machado de Assis com MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (considerado um clássico mundial, com diversas traduções, incluindo inglês e alemão), Clarice Lispector com A HORA DA ESTRELA (que também já chegou em vários países), e ainda temos Carolina de Jesus com QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA, Itamar Vieira Júnior com TORTO ARADO, Stênio Gardel com A PALAVRA QUE RESTA, e a lista continua.
Para mim, ver Darcy Ribeiro e O POVO BRASILEIRO: A FORMAÇÃO E O SENTIDO DO BRASIL ganhando o mundo vai além do orgulho. É testemunhar o reconhecimento internacional de um estudioso que dedicou a vida a nos entender. Mais do que isso: é ver nossa verdadeira história, com todas as suas complexidades, sendo contada para cada vez mais pessoas ao redor do globo.

